18.10.10

Três lições

(Em homenagem ao dia dos médicos)

Já faz quinze anos. Ou quase isto. Não é tanto tempo assim.  Era um período de intenso aprendizado, tanto técnico quanto emocional.  Algumas lições, no entanto, tiveram um impacto ainda mais duradouro que outras, também fundantes do que seria a minha prática diária como médico psiquiatra. Recordo-as hoje, dia do médico, em homenagem a todos os colegas médicos e em deferência à minha sorte por ter me colocado neste laborioso e instigante rumo.   
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Lembro-me de uma das primeiras entrevistas, no início da residência médica, com um jovem que apresentava o primeiro quadro esquizofrênico em sua vida. Éramos dois iniciantes. Para mim era uma surpresa trabalhar com uma doença mental tão grave e encará-la como tal.  Qual a diferença entre tantos tipos de descompensações que já havia conhecido em minha vida anterior, tanto como ser vivente quanto como médico e aquele quadro bizarro de sofrimento tão escancarado e intenso?
Após colher uma acurada história clínica, contactando tanto o enfermo quanto familiares, preparei o caso com esmero para levar à reunião clínica mais importante do departamento de psiquiatra da minha escola médica.  Após apresentar todo o histórico, bem como o exame do estado mental e físico, hipóteses diagnósticas, o Professor Titular da cadeira me perguntou: “E qual é o tratamento?”, ao que respondi prontamente com o nome do medicamento antipsicótico mais recente, cuja propaganda impregnara na mente de dez em cada dez residentes de saúde mental.  
Ele, por sua vez, balançou a cabeça como que se concordasse parcialmente com minha fala e complementou: “É, pode ser com este remédio, pode ser com aquele ou aquele outro, isto vai depender da resposta que o paciente apresentará ao medicamento e que teremos que observar na prática.  O mais importante agora não é isto.  O mais importante é saber em que este menino difere de todos os outros pacientes com o mesmo quadro que conhecemos, ou seja, o que ele tem de próprio, seus potenciais recursos e problemáticas. Quem é ele? E também orientar a família sobre a doença e sobre o prognóstico, tanto se receber tratamento quanto se o tratamento for negligenciado...”
Aquela intervenção ficou-me muito marcada, uma vez que balanceava, ao menos em parte, a importância tida como capital da indústria farmacológica - sem negar sua fundamental papel - em achar respostas definitivas para os dramas existenciais e para as aflições do ser humano e mesmo para doenças graves como a esquizofrenia.
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Outra lição:  Era um dos últimos dias de residência.  Eu acompanhava uma paciente com um quadro extremamente grave.  Pouca ou nenhuma resposta teve mesmo após significativo tempo de internação.  Era uma psicose de tal maneira catastrófica e com tamanho sofrimento, que se desconfiou que não fosse, de fato, um transtorno mental e sim alguma doença clínica com comprometimento cerebral ainda mais intenso, como um quadro neurodegenerativo.  O fato é que pouco ou nada havia de melhora e sentia-me profundamente frustrado - em minha onipotência dos anos iniciais de médico - em terminar a residência com um tamanho fracasso terapêutico.  
Foi quando um dos meus professores orientou-me - “Vá despedir-se de sua paciente.  Convide-a para dar uma caminhada pelo corredor”. Eu retruquei: “Será?!  Ela certamente não vai aceitar, não entende nada do que falamos com ela, e de mais a mais, de que isto vai adiantar?”.  Ele falou-me: “Pode não adiantar de nada mesmo, mas vá lá, convide-a, vamos ver o que acontece...” 

Foi o que fiz, e muito descrente, achando que fosse uma espécie de trote final pelo término da residência. Qual não foi a minha surpresa quando a paciente não só aceitou, como prontamente começou a andar pelo corredor e fez alguns comentários até lúcidos sobre o tempo e sobre sua doença.  Falei que estava indo embora e ela me disse: “Já vai?  Não vai ficar mais um pouco?”  Disse que tinha que partir e ela disse tiau.  

Sei que parece pouco contado assim de modo tão sucinto.  Mas é que era preciso estar lá para ver a transformação que foi um convite daqueles no quadro clínico da paciente.  Momentaneamente, ela estabeleceu uma curta relação novamente compreensível e entendi, de pronto, a importância de não buscar simplesmente resultados satisfatórios, mas de buscá-los, sempre, do modo mais humano e respeitoso possível.
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Uma última lição, dentre as que me recordo de bate-pronto, versa sobre a função do médico psiquiatra (como, extensivamente, de todos os profissionais de saúde).  É retirada de um livro de história de psiquiatria, chamado “A Cura da Mente”.  Neste, o autor, após revelar séculos de história dos cuidados com a doença mental, que vem desde muito antes da psiquiatria ser psiquiatria, revela alguns dos desafios da disciplina para o século vindouro (que é este em que nos descabelamos).  
Quando o autor manifesta suas esperanças e debate os desafios que enfrentaremos neste período, diz que um dos maiores, sem dúvida, é fomentar, nos pacientes, o que ele chama de espiritualidade.  Adverte que é um conceito que tende a transbordar para discussões filosóficas, teológicas e pouco práticas mas que, o que está conceituando como espiritualidade é algo bem mais simples, e meramente: “preocupar-se um pouco menos consigo mesmo e um pouco mais com o outro”.  
Ou seja, perceber-se fazendo parte de uma organismo circular e complexo de ligações e sair da observação contínua e estafante do próprio umbigo. Assim, quando da morte de um parente próximo, perda de uma posição de renome ou da ruptura de um relacionamento, a primeira idéia que viria à mente não seria: “Não quero mais viver esta vida” e sim: “O que posso aprender com isto?  Como respeitar o caminho do outro e encontrar o meu próprio após uma perda tão dura?” 

Enfim, o sofrimento psíquico poderia ser visto como fazendo parte de um laborioso processo de aprendizagem e de maturação e não como um mal em si.  Isto não será conseguido através de medicamentos mais potentes ou com menos efeitos colaterais, mas, tão-somente se o médico aceitar a sua verdadeira vocação de clínico, ou seja, daquele que se inclina e oferece a mão para o outro levantar-se e, uma vez de pé, reencontrar o caminho seu, singular. 
Michael Stone, o autor do livro, relembra que, a religião era a psiquiatria, antes de existir psiquiatria. E onde foi parar esta influência tão grande da religião em tempos de positivismo e cientificismo extremados? Em suma, não é temerário confiar somente na ciência e nas estatísticas? Não se corre o risco de esquecer que o ser que sofre deseja, não só o alívio da dor, mas, outrossim, experimentar harmonia e crescimento?  

Tenho ouvido, finalmente, muitas pessoas dizerem que conhecem um médico pelo aperto de mão.  O que revela que as pessoas querem, quando precisam de ajuda, não só de técnica, mas de “human touch”.  Como dizia meu irmão, ortopedista:  “É como fazer bala de coco: pode encontrar a melhor receita e os ingredientes perfeitos, mas se a mão não tiver a temperatura certa, não tem jeito de dar liga”.   
Ser médico nada mais é que uma forma - bela, intricada e digníssima - de ser gente.

16.10.10

Se eu desenhasse...

(Para o amigo Fernando Chuí)

Uma página em branco.  Distinta para um desenhista e para um escritor.  O desenho é livre e as formas são únicas.  Cá e lá, as opções se delineiam de modo contínuo e quase imprevisível.  Uma paisagem antiga e viva.  Hoje e ontem se encontram no vale ensolarado: o amanhã é provisoriamente dispensado. O farfalhar mostra que há vida, algumas batidas de martelo na reforma da capela o confirmam.  
Vida, vida, vida.  O escritor pode repetir seu jargão.  O desenhista duplica  seus motivos: telhados das casas amontoados, vegetação e ladeiras em fragilíssima harmonia. Em ambos, nostalgia.  O escritor se lembra dos momentos vividos.  O desenhista os captura para o futuro.  A paisagem se move discretamente com o correr dos minutos.   A escrita também.  Os tons amarelados do esgarçar da tarde são capturados de modo sombreado, em negro, pelo desenhista.  A proximidade da noite joga tintas melancólicas no papel de se escrever.
Papéis de se escrever e de se pintar são distintos.  A obra inacabada do desenho sempre cabe naquela página, na tela única, no bloco de desenho, ainda que sua tinta jorre para outra folha, por defeito da caneta, do papel ou por necessidade da composição de transbordar-se para mais além de si mesma.  A obra de escrever, que se propõe um desfecho tangível, geralmente amarra páginas em torno de uma idéia central e busca o todo com tintas que não se encerram no objeto da escrita e buscam, no leitor inesperado, o tecido onde tingirá seus liláses e efeitos sinestésicos...  
Expressões libertárias, cada uma a seu modo.  E que requerem um pouco de jeito e muito de atrevimento.  Bocados de técnica e temperos inspirados: nunca a perfeição, morte de todo processo.  
Uma paisagem exterior e um contexto vivencial íntimo. Aprender e esquecer: processo contínuo de assimilação e desgarramento.  Poeta e artista se apegam e se desvencilham de valores com igual velocidadde.  A arte só fará sentido se romper e caso, ao mesmo tempo, atingir uma nova síntese.
Naquela tarde que custava a morrer, de frente ao vale, tantas pessoas comuns seguiam sua rotina desassossegada, o desenhista esculpia em relevo mínimo, com lufadas generosas de seu nanquim, um jogo de contrastes e vazios, um jogo da velha contemporâneo, uma confissão de apaixonamento por um lugar que não era seu, por séculos de história que só se faziam sentir naquela breve necessidade de registrar o momento.
Pouco mais distante, em outra intensidade e frequência, o compositor rolava sua esferográfica em um papel pautado, donde os tons de terra e amarelos do dia a perder o fôlego de existir se embrenhavam no calor de chocolate, na brisa de cravo da noite a verter seus azuis.  Quantas histórias por acontecer no desenho e na escrita?  
E iam tocando suas vidas sem mais nada perceber por alguns minutos, quiçá uma ou duas horas, donde a vivência cotidiana, de se buscar o jornal na banca, de pagar a conta do telefone ou ir cortar o cabelo se punham suspensas, inutilíssimas.  Por pouco mais de uma hora o verbo ser tinha aquela outra característica - uma co-criação entre o mundo imaginário e o real, entre personagens existentes e cavaleiros intangíveis, entre conspiradores decapitados de séculos passados e pedreiros a puxar uma soneca à sombra do flamboyant. E viver fazia sentido.  E seguiam a estrada, de modo paralelo, entre realidades forjadas e ficções do dia-a-dia, tão necessárias nestes tempos de rudeza tamanha.
E já repercutiam em suas memórias o micro-efeito que a saudade instila e semeia, quando algo de realmente bom acontece.  E o que é este acontecer?  É a dispensa possível de uma realidade externa perfeita para se ser feliz.  Por um átimo de minuto, um fim de tarde preguiçoso, no instante entre duas marteladas da reforma da antiga catedral.  Quando cai a noite na cidade velha, vem-lhes a lembrança, neste improvável cenário, do efêmero que é existir. 
Súbito, deixam de lado seus mundos particulares e param na fábrica onde pedem chocolates quentes - belga e francês - e ficam ali discutindo sem a menor possibilidade de acordo, qual deles era o melhor. Botaram os pés na realidade de novo. Obras infindas e infindáveis, escritor e desenhista seguem, então, seus caminhos... E já não são mais nem um nem outro...

7.10.10

Impublicável...

Você já teve um dia impublicável?  Não?!  Fale a verdade... claro que sim! Uma noite de perda total, de arrependimento puro, puríssimo?  Um desejo inconfesso até para si mesmo?   

Então responda rápido: O que você faria se fosse anônimo por um dia?  Se fosse invisível por uma semana?  Demorou demais!!!

Drummond dizia que o homem realmente bom é aquele que, uma vez invisível, faria exatamente a mesma coisa que faz quando visível. Drummond era poeta, além de ser grande. Para quem vive aqui embaixo mesmo dá uma vontade danada de ser invisível.  Para ver o que não deveríamos ver, para ouvir o proibido e inenarrável, para sei lá o quê mais - e que é, em suma, para ser guardado.

Uma amiga minha preferiria ter o poder do teletransporte.  Mas isto é muita fumaça acumulada no cérebro, frutos destes dias de trânsito estanque das marginais de São Paulo.  Eu não, eu queria mesmo era ser invisível.  Ser uma mosquinha não serve, que eu não compreenderia aquele olhar multifacetado dos insetos.  Quero ver as coisas de um só lance, como se a realidade pudesse ser engolida subitamente. E tenho, ainda mais, a fantasia de que isto me faria mais feliz que triste: veja só que despautério!

Mas eu preciso contar um segredo: eu já fui invisível por um dia. 

Sei que parece estranho, mas já me aconteceu.  Estava ouvindo uma música chamada Astronomy Dominé, do Pink Floyd.  Não tinha drogas nem transe, foi um fato: fiquei invisível.  É bem verdade que o quarto estava escuro...

Sei que parece estranho, mas já me aconteceu.  Eu era garçom numa churrascaria e uma senhora pisou no meu pé e não me pediu desculpas. Tem gente que não se (me) enxerga!

Já me aconteceu, acreditem.  Eu andava nas ruas de São Paulo e tive uma convulsão.  De algum modo, percebi que as pessoas se afastavam de mim e ninguém parou para me acudir. Alguém aí sabe o que é solidão?  É isto.

Eu já fui impublicável por um dia. Mas é que não dá para contar - se desse, seria uma entre duas mentiras... Tem coisas que a gente não conta nem para a gente mesmo.  Daí que o Quintana dizia que o psicanalista é uma espécie de Super Sherlock Holmes, pois que procura um fato que o próprio réu desconhece. 

Perdoem-me, o que eu conto não tem nada de novo, eu sei.  Mas sigamos em frente, para ver se descobrimos o que é que não se pode revelar.

Quantas pessoas já te pediram segredo?  Não é um conflito?  De um lado a curiosidade por saber da novidade, de outro a responsabilidade de manter o assunto incólume.  Mas porque é que contam, se é para preservá-lo?  Alguém já te contou que fez uma besteira realmente grande?  Algo que não dá para imaginar?


Pois é, então deixe-me fazer um adendo: lembra-se daqueles três macaquinhos com olhos, ouvidos e boca ocultados?  Nós, brasileiramente, os interpretamos como "não sei de nada, não vi nada, não falei nada".  No simbolismo original, contudo, significa: "Não nego a existência do mal, mas não o reproduzirei, não lhe darei meus olhos, ouvidos ou boca".  Não seria, desta feita, melhor que não soubéssemos dos segredos? Mas quem é que resiste, não sendo macaquinhos de madeira?  Uma figura que conheci insistia: "Pode me contar o que quiser, mas lembre-se: não sou baú!".


Ter um segredo é um poder.  Daí que soltar a língua e revelar um segredo pode ser - no extremo - um novo meio de se criar conexões que o mundo precisava para respirar (mas seja fofoqueiro por sua própria conta e risco!). 


Mas há outros poderes fascinantes - vejamos: O que você faria se ganhasse na loteria?    E se o mundo fosse acabar?  E se pudesse voar?  E se pudesse ter qualquer superpoder, qual seria?  Atravessar paredes, o dom da cura ou o de seduzir?  Transmutar-se em qualquer forma, ser invisível, poder ficar sem dormir?  Levitar, voar, ter o fôlego de uma baleia?  Diga lá: qual desse seria sua escollha?  Ser eleito sem saber ler ou escrever? Ou tem algum outro inconfesso que não foi listado? Fazer o tempo congelar ou voltar para trás?  Não envelhecer, ter vida eterna?  Escolha um só!  Você seria feliz com este único dom a mais? Mesmo não podendo escolher mais de um?  

Um poder só é muito, entretanto é muito pouco... O homem tem o dom de querer, de fato, o que não pode.   Lembram do conto do Barba Azul?  Não entre naquele quarto e a mulher vai lá e entra...  E do Paraíso primordial:  não coma esta fruta...  Somos transgressores.  Em qualquer mitologia que se queira buscar e em qualquer religião. E, mais próximo ainda de nós, em cada jornal. Descobrir que a terra é redonda e não plana foi uma transgressão.   Descobrir que o homem pode ser feliz mesmo cá e não só no paraíso post mortem é uma rebelião (e foi, de fato).  Mas a transgressão é, para o bem e para o mal, fundante do que mais somos.  

Criamos redes sociais, transportes mais rápidos, modos artificiais de respirar embaixo d'água.  Criamos espiões e aplicativos suspeitos e seus contrapartes de segurança. Novos recursos de diagnóstico e terapêutica, protetores para a pele, normas de higiene. Previsões para o tempo e para a expectativa de vida. Aeronaves e ultraleves, perfumes e danças. Novas maneiras de erotizar o corpo, sex-shops. Roupas de camuflagem para a guerra.  Somos transgressores - mas ainda duvido que queiramos mais a invisibilidade que a visibilidade.  Fazemos o que não podíamos até torná-lo, pela repetição, lícito, tradicional e instituído. Só não é impublicável porque é fato consumado.

Mas e se transgredíssemos nossas próprias fantasias e nos contentássemos com os mini poderes do cotidiano?  O poder de se lambuzar ao comer uma manga madura e de sentir um prazer danado...  A façanha de chegar em casa meia hora mais cedo e fazer uma surpresa a todos trazendo pão, presunto e queijo fresquinhos...  O dom de dizer uma palavra amiga numa hora difícil ou de só ficar tranquilo segurando a mão de quem está sofrendo.  O poder de ajudar alguém a fazer as malas para uma partida difícil. Ou simplesmente ter o dom de ficar quieto? E quieto no mais quieto de si, confortável em sua própria casa mais íntima? E ter a clareza de que tudo (ou quase) o que você sente é publicável?

Espremidos entre a fantasia impossível e o cotidiano previsível, temos a alternativa de transgressão ou de adaptação.  Sugiro a adaptação através da transgressão.  Tornar corriqueiro o não-manifesto. Fazer do impublicável a malha mesma com que se tece a colcha de retalhos do nosso mais inconfesso sonho: entre os queridos - e os nem tanto - envelhecer, envelhecer e, finalmente, envelhecer...







6.10.10

Dez minutos

Dê-me dez minutos enquanto faço uma ligação.  O mundo acontece em 10 minutos.  Número exacto, reto, indubitável.  Dê-me dez minutos e eu pedirei um pão de queijo com uma média.  Pedirei licença ao senhor da mesa da frente para emprestar uma cadeira.  Sente-se.

Dê-me dez minutos e eu te contarei alguns dos problemas mais graves da humanidade.  E te contarei algumas outras obviedades.  Dez minutos enquanto espero este trem que já está atrasado há mais de duas horas.  Dez minutos é um tempo que se multiplica em suas infinidades micrométricas.  O tempo se dobra em si mesmo e te pede que me conceda só estes dez minutos.

Em dez minutos permitirei que me mostre o espanto de qual se constrói cada uma de suas personas e te mostrarei que precisamos de muito tempo para nos conhecermos.  Tanto cada um a si mesmo, quanto entre nós mesmos.  Mas em dez minutos já se formam as primeiras impressões, talvez em muito menos tempo.  Dez minutos é a divisão exata entre o tempo micro e o tempo prático.  Dez minutos de espera já começa a irritar na fila da lotérica, na fila do banco. Qualquer tempo é macro para se perder em filas.

Em dez minutos Hernandez cometeu um crime e pegou sua rota de fuga.  Em outros dez minutos arrependeu-se.  Mas correm os anos e ele continua foragido.  Em dez minutos Armando roubou uma flor e foi correndo à casa da futura namorada atirar-lhe com um bilhetinho amarrado.  E em dez minutos mais ficou ali, morrendo de vergonha e pensando: "E agora, o que eu faço!" Foragido em si mesmo, percebeu que fizera uma doidera, mas que era a única coisa certa.

Em dez minutos um acionista ficará milionário e uma mulher sofrerá uma agressão.  Em dez minutos quantas crianças terão nascido?  Em dez minutos o assistente médico pedirá para revesar na massagem cardíaca daquele senhor que custa a reanimar.  Nos próximos dez, saberemos se ele continuará vivo ou não.

Em dez minutos este amargo da boca me será familiar.  Em dez minutos nos acostumamos com o inaceitável, com o malabarismo nos semáforos e com aquele cobertor esfarrapado sobre um pedaço de gente estirado na calçada.  Em dez minutos pensaremos que só nós mesmos é que sentimos frio.

Em dez minutos o mundo terá percorrido algumas centenas de milhares de quilômetros e não perceberemos.  E não perceberemos que o grosso do mundo, como o mais de quase-tudo, é imperceptível.  E em dez minutos, puxa, o que mais posso escrever?

Em dez minutos, arre!  Quanta coisa boa e ruim por acontecer?!  Me dê dez minutos e eu te mostrarei como é instável essa nossa construção louca e humana de nos apoiar nalgo que não tem qualquer dimensão: o tempo.  São só dez minutos, mas êta trem ardido!  


5.10.10

Cachecol


(Ou: “Momentos de pico”)


Um momento de pico.  Uma epifania talvez. Pode ser uma viagem, uma leitura, um chá  da tarde. Pode ser um pensamento novo ou uma comida de que se gosta. Tomar uma água de coco na praia, andar em silêncio ao lado do seu pai. Abraçar sua sobrinha, ver seu videoclip preferido. Qualquer coisa simples quando se rompe, súbito, o véu da mesmice e se percebe a intensidade que pode haver na experiência absurda de estar ali. Para que serve?  Para indicar caminhos.  Para mostrar que a vida, o significado, se é que há, é estarmos vivos.  Um momento de pico serve para ser sentido, saboreado até a última gota, e mais nada.



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Era uma praça numa cidade distante, e o sabor da comida brasileira, depois de tanto tempo, na forma de pão de queijo e guaraná Antarctica, eram uma espécie de alento. Pediu uma cerveja irlandesa, de sabor forte e apoiou-se numa das pilastras que seguravam o teto do pequeno coreto.  Era um música escocesa mas parecia um mantra indiano: pensava quais os elementos que compõem estas sensações estranhas que as canções despertam.  Contava a história de um amor desfeito pela guerra.  Dois violonistas se esmeravam para reproduzir cada detalhe do arranjo.  Começou a chuviscar.  Mordeu o último pedaço do pão de queijo.  Pensava: quando voltarei para minha casa?  Será que estarão todos bem? A lembrança de tantos acontecimentos conjugados com a melodia triste teciam a trama donde seu sentimento de pertencimento lhe indicava o caminho: “Volte!”  Sem avisar a ninguém, desembarcou na cidade de Fortaleza na antevéspera do Natal.  Fazia um calor imenso.



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Tocava uma música dos Rolling Stones, “As Tears Go By”, numa versão de Tim Ries. Jonas, um neo-resgatado, se lembrava de Adriana.  Era uma espécie de revelação, todos os nomes de mulheres expostos numa só palavra. Impressionante a força deste nome na mente de Jonas: Adriana.  Na última vez que se encontraram perceberam que havia mágica no ar. Sem maiores delongas, após uma estúpida descoincidência de anos, sintonizaram-se. E entenderam o poeta Octavio Paz: “a pessoa amada é a desconhecida e a reconhecida, abismo e lar”.



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O que João Henrique fazia com seu próprio corpo?  Jogando aquela poeira branca para dentro de si, uma nuvem de artifícios andina.  Sentia-se mal.  E o pior do mundo era sentir aquele arrependimento que nunca se esgotava e que se espraiava em tédio, raiva, oscilações de humor.  Eis o fator de revolução pessoal que o salvou: o nascimento do filho.  Percebeu que precisava por-se de pé para cuidar dele.  E o mesmo pensou, sem qualquer pensamento, o pequeno Gustavo, em seus poucos dias de bebê: “preciso dar um jeito neste velho”.  Gustavo no colo de João Henrique, um amálgama cambaleante e em busca de vida e equilíbrio. 



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Visitavam um monumento que se situava entre a história e a pré-história.  Pedras empilhadas sobre si mesmas.  Stonehendge.  Como foi feito? E por quê?  Ninguém sabia ao certo explicar.  Algumas evidências apontavam para uma construção religiosa, outras para uma espécie de observatório ou laboratório de astronomia. Uma outra interpretação rezava que se tratava de um monumento para enaltecer a grandeza do homem e que, portanto, teria fins políticos.  Quando foi que se desvencilharam, de cada ato humano, a relação íntima entre religião, política e ciência?  Talvez aqueles que o construíram quisessem nos alertar justamente disto: que o ser humano é capaz de coisas grandiosas e que as divisões são frutos da mente e não da realidade.  Denise, Nani e Fabrice voltavam da pequena viagem e falavam do rompimento estúpido de uma amizade que se deu por conta de um objeto material.  Uma confusão até difícil de se explicar.  Nani argumentava que amigos ficam furiosos um com o outro, xingam, mas os laços não se rompem.  Fabrice dizia que, resumindo, era uma coisa triste.  Denise trazia lembranças de uma fase onde as coisas eram mais simples, longe das grandes e das pequenas divisões causadas pela humanidade, como Stonehendge.



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Decidiram que ficariam naquele restaurante mesmo.  Era um dos melhores portenhos e ouviram falar que a carne era excepcional.  Antônio, decidiu, já que era a comemoração do aniversário do tio, autorizar o exagero: reuniram-se para apoiá-lo nos momentos pré-cirurgia.  Mas reuniram-se, muito mais, mesmo, por reunirem-se. A noite era perfeita, temperatura e brisa, uma caminhada até o restaurante à beira do rio.  Ergueram suas taças e fizeram pedidos em silêncio.  Eram seis e pareciam mais, pois cada um carregava seus ausentes.  O maitre aconselhou enfático: “Ojo de bife: no hay mejor”.  Esbaldaram-se.  A certa altura a tia falou, saudosista, para Antônio: “Este cachecol quem fez foi sua mãe.  Bonito, não?”  Nem era tão bonito, pensou.  Mas ela estava lá, etérea, e a tia ficou brincando com o cachecol por uns instantes. Brindaram novamente e o garçom trouxe a impecável torta de maçã. Ao deitar-se, cogitou: algumas noites deveriam se cristalizar - em açúcar, em neve ou em lembranças - simplesmente para reter o sabor de cada elemento. Antes de adormecer, passou-lhe na veneta: “Se um dia eu perder um amor verdadeiro ou uma amizade visceral, pela única razão maior e inelutável, quero, antes, ser o cachecol que as mãos que o embalam”.