31.5.11

Dama da noite

Ela vem quando se está distraído
Aroma intenso, de onde vem?
Procure!
Não se esqueça de caminhar
Dama da noite

Uma flor dentro de
Tímida arvorezinha
Cestrum nocturnum
Inesperada, chama
Flagrante deleite

Nas últimas horas
Do mês de maio
Ela te salva
De uma noite besta
Fragrância derrete

Faça as contas
O que sobrou, o excesso
Divida as perdas
Subtraia o desânimo
A flor voltará em um ano

Perfume a lembrar o que já foi uno:
Ah! Dias prateados da infância...
Outrora era flor
Hoje é dama
Um dia, apenas a noite

E juntar em si, tudo!
Além de flor
Ser dama e ser noite
E de quebra, nossa gratidão:
Fazer-nos inspirar fundo e acreditar...

25.5.11

Entrega

Um bebê se rende ao sono
Do outro lado do oceano
São quase onze aqui
E lá, quantas horas?
O bebê não faz a mínima

Apenas se entrega

Um barulho inconfundível de placas de metal caindo
Ônibus acelerando, solda e marteladas
A cidade pede licença
E coloca o bloco no caminho
Para minha dor passar

Pena, é só concreto mesmo...

O silêncio da cidade tem algumas
Dezenas de decibéis
Seu silêncio tem algumas
Centenas de pensamentos
O bebê está lá do outro lado

Dormindo - o anti-poético babar-se.

Logo alguém virá me cutucar e
Vai me arrancar deste mundinho sossegado
Todo mundo tem um lado bebê que dorme
Enquanto o mundo funciona e joga
Cimento e argamassa em nossos olhos

Vociferando, jorre um insulto

O que faz os grandes babarem-se é
A incapacidade de entrega
A qualquer coisa,
A qualquer hora,
A qualquer

Sentido genuíno de renúncia

Deixemos o bebê descansar
Nós é que estamos
Do outro lado do oceano
Entregue seus problemas na caixa de papelão
Em frente à farmácia da esquina e renda-se

A quem entregará suas armas: à poesia ou à vida?

23.5.11

Maio

É sonoro.
Mas é principalmente luminoso.
O Sol é prateado.
Algumas pessoas arriscam andar na rua e olhar para frente e para cima.
O que é uma novidade.
Maio.

É preciso ficar atento pois só dura um mês.
Depois tem outras épocas bonitas.
Mas viver em maio é um desafio menor.
Se é que viver deixa de ser, a qualquer hora
Um tapa na cara.
É mês de Maio

Três vogais para uma consoante.
Favorecido pela abertura do mês anterior
E antecipando as festas religiosas do seguinte.
Maio não tem expectativas ou pretensões.
É só estar.
(E não é pouco).

Em maio, lembro-me do primo perdido por uma morte súbita
Parece que foi do coração.
E lembro da vitória de algum time de futebol.
Mas é tudo passageiro, não fiquemos reflexivos.
Não é tempo de profundidade.
A única coisa realmente profunda é,
Por um mês que seja, a beleza.

Nem frio nem calor,
Um tempo de diamante
Sem brigas ou congraçamentos,
Reconciliações.
Um pedreiro mexe com a menina na rua,
Um taxista avança o sinal vermelho.
Tudo no seu lugar...

Uma vez eu escrevi ou pensei
Que as borboletas voltariam
No mês de maio:
Balela.
Mas, de repente,
Era de outras borboletas
Que eu sentia falta...

Não quero um texto bonito,
Não quero acordar ninguém,
Desejo não querer nada e apenas
Denunciar a beleza do mês de maio.
Olhe em volta, para cima e esqueça,
Senão por um mês, por um dia
Que outros meses virão.

Sol prateado: ainda é maio.