25.2.10

À moda antiga

(Ou: "O dia em que o Google quebrou")

"Mas como?" Em todos os idiomas, esta era a pergunta mais ouvida. E como não havia nenhum outro modo de se informar a não ser pelo próprio Google, ninguém sabia responder. Era o ano de 2032. Pensando bem, até que não faz tanto tempo...

Outros sistemas de informações, busca, relacionamentos e o escambau já tinham sido engolidos pela megaempresa virtual.  Agora era o próprio Google que se implodira. Os mais tímidos, estupefatos, coçavam a cabeça: "Não havia qualquer concorrência, o que poderia ter acontecido?".  Economistas diziam que a área estratégica devia ter empenhado zilhões de dólares em algum investimento de alto risco, por exemplo, em pesquisas espaciais ou em estações extra-terráqueas. 

Todo absurdo fora redimido e era novamente bem-vindo. Os parâmetros volviam-se rotos.  Naquele dia, os canais de internet sumiram no vácuo deixado pela estrela nova. Só se conseguia ler, por toda a parte: "Error Nº 404".  A sobrecarga de acessos que vinha do Google, bruscamente desviada para outros sites, foi acusada pela pane no sistema.  Sinais de rádio e TV, transmitidos via web, emudeceram. Aeroportos interditados.  Só restava o apelo ao velho boca-a-boca. Ressuscitaríamos?

Ninguém entendeu porque a prefeitura decidiu que a feira de rua não ocorreria naquela quinta-feira. Muita gente sem pastel pôs-se a bradar de fome e de raiva.  "Agora qual seria a próxima coisa a se cortar? O ar?" Muita verdura boa foi usada na guerra dos feirantes com a polícia e as casas do entorno ficaram manchadas de tomate, nacos de melancia, giló e da indignação dos garis.



Helicópteros sobrevoavam a cidade em trajetórias atípicas, pois que ninguém sabia ao certo quantas destas máquinas estavam nos céus ao cair da tarde.  Os sistemas de localização "GPS-Pro V" baliam em louca algazarra e apenas mandavam mensagens de: "Recalculando a rota".  Coube aos aventureiros abrirem bem os olhos, tanto no chão quanto no ar. Coisa que não faziam, ao que se pôde apurar, há anos.



Bolsas de Valores fechadas. Havia grande suspeita de manipulação de informações e de dados. Os sistemas de BackUp on-line poderiam ter sido corrompidos e saqueados?  Experts foram procurados, mas ninguém queria atender telefonemas, pois os identificadores de chamadas apenas mostravam: Desconhecido.  Era uma época em que todos temiam muitíssimo o desconhecido.

Evandro, educador, sociólogo e professor de violão, regozijava-se.  "Quero ver como é que vão se virar agora!".  Reclamava de tudo em seu videoblog que era acompanhado por mais de 200 alunos, e que, paradoxalmente, lhe rendia um dinheirinho extra, via Google-AdSense. Vociferava absurdos, acusava a tecnologia de inimiga da real comunicação, jargão repetido há meio século, reabilitado em sua voz rouca a la Tom Waits.  Ao que se sabe, tivera uma grande frustração num relacionamento via GoogleDating.  A namorada o traíra com um sujeito que conhecera no mesmo canal e que, por coincidência ou sincronicidade, era seu amigo de infância. Foi para seu estúdio e pôs-se a recordar riffs de uma banda esquecida chamada Led Zeppelin. Aquele era seu dia de glória.  Sem alunos on-line, sem testemunhas ou Google Earth: deleitou-se em prato frio.  


Jonathan Carter Jr.  Nerd à décima segunda potência. Este garoto australiano de 16 anos já havia sido acusado por uma série de invasões de instituições respeitáveis como Apple, ONU e Pentágono e era um dos grandes suspeitos - mas o menino havia sido internado há três semanas por abuso de Crystal.  Poderia ter sido o governo chinês?  O medo vermelho tomou conta do presidente americano que veio a público manifestar-se. Afirmava que as causas seriam reconhecidas e os responsáveis, punidos: "Custe o que custar".  O mundo, mais uma vez, estava em pé de guerra.

Naquele dia, Joana não teve como registrar a queixa na delegacia da mulher, pois o "sistema estava fora do ar". Que tentasse resolver a pendenga de outro jeito ou voltasse amanhã, se fosse coisa séria.  O marido bebera novamente e chegara em casa com os olhos esbugalhados de nervosismo e jurubeba.  Não precisou de motivos para açoitá-la.  Para ela, a coragem recém-adquirida não levou a nada de novo. Tomou a pane como uma sinal de que, uma vez mais, deveria resignar-se. No escuro, sua face tornava-se aliviada enquanto assobiava um samba antigo "Camisa Amarela". Dormiu com ele na cabeça, como se fosse um mantra, um "Pai Nosso".   Uma conexão que permanecera íntegra.

Marcelo e Priscila.  A esta altura, não é preciso dizer como se conheceram.  Priscila o esperava com uma receita de risoto que encontrara na internet.  No meio do preparo, a internet "deu pau".  "E agora? Tô frita!" Telefones mudos.  Marcelo chega.  Priscila - depois de esconder a receita pela metade na geladeira - argumenta que estava indisposta. "Melhor pegar uma pizza, dar uma volta".  Cidade parada, semáforos cegos. Pizzarias, lanchonetes, padarias 24h: um longo blackout.  Nenhum disque-qualquer-coisa.  No único semáforo semi-vivo do bairro pararam o carro.  Seus olhares se entrecruzaram no fundo da alma pela primeira vez.  Aterrorizaram-se. Marcelo estacionou o carro uns vinte metros adiante.  Ali mesmo, no banco de trás, amaram-se. Esfomeados.  À moda antiga.








23.2.10

Cabeças trocadas

"A presidente da Argentina é mulher, o dos EUA é negro, os homossexuais andam pela rua de mãos dadas, o homem foi a Lua e a internet é uma realidade... mas tá assim de gente boa e com cultura que se recusa a tomar remédio quando precisa..."

(De um paciente meu, que não precisa mais de remédios... - sob autorização) 


A frase acima, já dispensa o texto abaixo, então, se você estiver muito atarefado e já captou a mensagem, melhor ainda, volte para seus afazeres ou para o lazer e será ainda mais feliz.  Mas já que ganhou tanto tempo assim, porque não chegar até o final do texto, não é mesmo?

Psicofarmacoindústria. Há uma pressão corrente da indústria, da mídia, do cinema e dos canais eletrônicos de comunicação a encher-nos de (des)informações sobre saúde mental, obesidade, dependência de drogas, tabaco e álcool. Inegável. Paralelamente, testes on-line, cartilhas de felicidade, propagandas de novos bálsamos e medicamentos para quase todos os males são veiculadas, ainda que sub-repticiamente. São as garrafadas modernas. Há uma lista específica apenas para cotar a venda dos livros de auto-ajuda. Informações de boa procedência também as há e aos montes, sejamos justos.  Mas quem é que tem tanto tempo assim para ler tanta coisa?  E viver a vida, onde é que fica?

Psicofarmacologia e psicofarmacoterapia.  Uso racional de medicamentos para o tratamento do sofrimento psíquico e transtornos mentais que respeite princípios de diagnóstico preciso e correto de tais males. Sem expectativas irreais. E que não prescindem de uma boa dose de arte. O psicofarmacologista não roda as horas noturnas pensando em como tirar o trabalho dos psicoterapeutas.  Há uma guerra desnecessária - quase tão tola quanto todas as outras - entre os que defendem uma ou outra linha de compreensão da mente.  O ser humano não é epifenômeno de acontecimentos neurofisiológicos veiculados nas profundezas encefálicas.  Tampouco é um psiquismo des-encarnado.  Como entoava Sting: "We're spirits in a material world".  E somos o próprio mundo material...

Estamos às vésperas do DSM-V, bíblia da Associação Americana de Psiquiatria que teria sido muito útil para o Alienista de Machado de Assis, especialmente se Machadão tivesse um olhar muito mais tacanho do que a boa ventura tão generosamente lhe concedeu.  Somados virtudes e mazelas, cabe concluir: o DSM, como força-tarefa, é útil e - dada a tamanha disparidade cultural e as fronteiras ainda (e sempre) não vencidas pela comunicação, é indispensável. Óleo de fígado de bacalhau: já que temos que engolir, o melhor é que o façamos depressa. A grande ameaça, contudo, é a de imprimir à psiquiatria o mesmo modelo fast-food de venda de produtos: o diagnóstico pode ser dado em uma consulta! E, mais grave ainda, a maioria dos psiquiatras o fazem em questão de poucos minutos! Ainda mais sob a pressão de arranjos de trabalho cada vez mais opressivos...  Estaremos à beira da "para-psiquiatria"? Não, fazer psiquiatria é como re-descobrir uma receita típica no fogão a lenha: leva tempo, é preciso a temperatura emocional adequada, é preparar o produto com a legítima devoção. Um professor meu costumava dizer que é preciso alguns fios de cabelos brancos... E dizia que a base do estudo da Psiquiatra se assenta no tripé (que vale para os profissionais da saúde mental, em geral): psicopatologia (o conhecimento dos quadros patológicos e da experiência do sofrer mental, via empatia), psicofarmacologia (estudo dos sistemas cerebrais, neurofisiológicos e dos efeitos dos medicamentos no organismo, incluindo indicações clínicas, farmacocinética, farmacodinâmica, reações adversas e seu manejo, etc.) e, finalmente, psicoterapia (o tratamento interpessoal do indivíduo - e não apenas do transtorno mental).  Para isto: atualização contínua, supervisão, psicoterapia pessoal. E saber ouvir e captar significados. Um treinamento - técnico e emocional - de maratonistas.

Consequentemente, a conta não fecha: a demanda por atendimento em saúde mental é expressiva e vem aumentando. Some-se à receita: o uso amplo de álcool e drogas, a dificuldade e os custos da formação, baixos salários dos profissionais de saúde, a fúria monetária dos convênios, o dinheiro da saúde desviado para os marqueteiros. Por outro lado, a melhor divulgação de conhecimento, a quebra sequencial de tabus e, finalmente - ainda que isto tenha um cheiro de utopia - o fato do homem estar assumindo seu lado sapiensSapiens de Homo sapiens.  Sapiens significa que não somos só carne, ossos, nervos e ligamentos.  Somos sabedoria.  E como tal, o homem questiona, sente, luta, idealiza, odeia.  Tem fome, mas tem também apetite.  Tem desejo, mas também erotismo.  Tem sede, tem paladar.  Tem vergonha. Arrepende-se. Tem honra e saudades.  Em resumo: tem mil maneiras de sofrer.  E o que sofre no homem é também o que se chama alma.  Mas que diabos é a alma?  "Alma é esta coisa que se questiona se a alma existe", segundo o mago Quintana. E ponto. Para a medicina, a alma se chama mente.  Ok, todos sabemos que não é exatamente isto, a alma é um conceito mais transcendente e a mente é um conceito mais técnico.  A mente precisa do cérebro para existir. Quanto à alma, quem é que pode responder?  

Corpo e Mente, uma dança arquimilenar.  As inter-influências entre corpo e mente são amplas: estrela e brilho; átomo e poesia.  Indissociáveis.  Na verdade, esta divisão só existe mesmo, assim tão clara, na nossa mente - ops! Resquícios de uma herança cartesiana - que se pensava capaz de todos os desafios vencer - e de um referencial positivista de ciência (que já vem mostrando estigmas de cansaço).  O próprio Descartes mostrava-se atônito em seu "As paixões da alma", uma vez que a alma não se deitava a seu método matemático de análise. Alguém por aí já viu uma mente andando sem corpo ou um corpo bailando sem mente?  Thomas Mann notou bem esta ciranda em seu "Cabeças trocadas".  O corpo é substrato para existência da mente que o modifica e é por ele constantemente influenciada. Moto-perpétuo. Quando se apaixonam, quando sofrem e quando se rejubilam, é o ser todo que o faz. Homo e sapiens.

E por que tamanho preconceito - quando é preciso tratamento - com o uso de psicofármacos?  Uma das dificuldades, ainda, pode ser o hiato de informações respeitáveis e de fácil acesso. No entanto, não estou falando de gente iletrada, mas de advogados, religiosos, dentistas, filósofos, médicos, profissionais de nível técnico e superior. Gente que se conecta ao mundo virtual, que assina revistas, que tem TV a cabo e geladeira que solta gelo na porta. E que se ressentem com a idéia de usar medicamentos para tratar sofrimentos mentais. É... nada se compara ao pré-conceito.  Ou seja, a idéia rija que se tem anterior a qualquer conceito (e que perdurará mesmo quando apresentado ao real conceito...). E que é cascudo, refratário, indisponível a mudar-se.  É o famoso "Não li e não gostei", atualizado para "não tomei e não me adiantou para nada".  O modo de lidar com o preconceito pode ser indireto, ao estilo mineiro, comendo pelas beiradas. O que também leva tempo...  Propaganda balanceada e realista, maior aceitação do fato que o padecer fez, faz e fará parte da existência.  É preciso ao homem o ato de se rever.  De frente para trás e de volta para a frente, a palavra auto-reflexiva: rever.   

A imagem em espelho daquele preconceito é a do sujeito que pensa que vai resolver seus problemas apenas tomando medicamentos.  Não, não vai.  O uso de fármacos pode ser essencial, mas, em saúde mental, o paciente é - também e principalmente - agente transformador.  O medicamento não vai nos transformar em abobados, tampouco em espertalhões. Ainda que a mídia teime em afirmar o contrário. A menos, é claro, que o sejamos, a priori e em essência.   O uso de medicamentos serve para "engraxar" uma máquina que vinha soltando alguns rangidos.  O tratamento como um todo, entretanto, é uma partitura tocada a quatro mãos.  Pode até colocar-nos de pé novamente, mas querer andar já é outra história... Bion afirmava que o encontro terapêutico é um encontro entre dois seres e, preferencialmente, um menos ansioso que o outro. Logo, é o médico que decide se o medicamento é necessário e por quanto tempo mas é o paciente que decide se e quais relacionamentos deve perpetuar. Se deve dar duro no trabalho ou arranjar mais tempo para ficar com a avó doente. Se faz aquela viagem para o Nordeste ou para Santiago de Compostela.  Como já diagnosticara precisamente Sartre: "o homem está condenado a ser livre".  A doença mental pode ser a pseudo-reversão desta condenação, sob um claustro ainda mais embolorado e pesado, menos luminoso que o de Sartre.  A beleza de cuidar de um ser humano em sofrimento, sendo também um ser humano - e muitas vezes, também em sofrimento - é este exercício único e contínuo de liberdade.

18.2.10

Estrelas sob a pele quente - Capítulo VI (Um senso inacabado de justiça)

(Fragmentos de um romance virtual).

Capítulo VI - Um senso inacabado de justiça

Meu nome é Jorge Brasil Pereira. Embora muitos me chamem de Brasil, como tantos outros xarás nascidos na desembocadura dos anos 70, prefiro
ser chamado apenas Jorge, pois é menos comprometedor e mais direto. Associo meu nome a uma postura mais definida e assertiva diante da vida, ainda que, neste quesito, por certo deveriam chamar-me Brasil.
Acabo de sentar-me ante a escrivaninha, ainda suado por ter terminado há instantes uma corrida à cata de um marginal que roubara a bolsa de uma senhora. Comecei a correr com o embalo dos outros transeuntes, mas cessei logo depois da bolsa arremessada ao chão - o ladrão percebera que seria pego e desfazer-se do resultado de seu trabalho seria um modo turvo de afastar a atenção dos perseguidores que visceralmente se botaram em seu encalço. Meu fôlego ou meu ânimo me dissuadiram de continuar a corrida. Alguns compromissos pessoais, a agenda, o calor da cidade que não respira nas horas próximas ao almoço, a fome, um senso inacabado de justiça. Pensei em retornar pelo caminho inverso no intento de conseguir, por acaso, esbarrar em alguma viatura policial que pudesse dar continuidade à perseguição. Nada.
Por estar na vizinhança de minha morada, acabei decidindo-me por entrar, suado, ligar um som qualquer (para isto o rádio é mais pertinente que qualquer outra forma de companhia). Ligo-o e eis que já está sintonizado na estação de minha preferência, o que me poupa algum esforço extra.
Corro para a máquina de escrever. Aqui, estou a salvo de bandidos. A grande ameaça sou eu mesmo. Penso em retornar a perseguição pelo assaltante, ou perguntar aos vizinhos em que resultara aquela aventura. Espremido entre dois medos, prossigo.
A música mansa se imiscui na interferência com os acontecimentos recentíssimos e percebo uma zona sombria onde diversas casualidades se entrelaçam. Como este arranjo pode interferir no caminho que traço, se é que isto é factível, é algo que busco descobrir.
Narramos o que é vivo. O que é vivo se desvenda, de forma sensual e descontínua, ora brusca, ora firme, ora sutilmente. O que narro rouba verbos da parede adormecida. Rouba interjeições do gatuno desesperado correndo ao sol das onze horas. O que narro é um arrancamento de histórias embriagadas e estiradas à sarjeta, esmolando um gole de água. O que conto espolia nuanças da guitarra distorcida em palpitações esganiçadas na mão dum violeiro já morto. Não sou sem tais influências. Por isso este desespero em acordar os músicos que já foram, por isto esta sede intensa de olhar a esmo para a parede, para os retratos risonhos que contam fragmentos congelados e imperecíveis de aventuras cuja importância já não temos como comprovar. Em nome da vida do que é narrado ouso atirar uma pedra no calabouço dos meus mais sórdidos pesadelos, atrevo-me a despertar a besta que se multiplicará em agonias, mesmo sem saber se poderei contê-la, mesmo sem garantia de resultado algum, mesmo sem saída de emergência.
Sou funcionário público. É difícil confessá-lo, por isto este tanto de capítulos, por isto esta enrolada tergiversação. Daí a necessidade da ação de confessar. Mas não me encaixo no estereótipo. Certo: se me encaixasse, é bem verdade que diria o mesmo e, deste modo, não haveria prova dos noves possível. Logo, melhor narrar o que há por ser narrado. O que digo é que não sou apenas um funcionário público; isto talvez por ter sido tocado, antes dos vinte anos, já atendente no cartório onde trabalho, por um filme sobre um japonês que após trinta anos de dedicação insossa à labuta descobrira estar doente de câncer. Ele percebera que o único modo de perseguir alguma forma de existência para além do roteiro improdutivo e já decorado de sua rotina modorrenta seria fazer algo para o outro, para aquele que viesse depois dele e, também para aquele que já se apresentava ao lado dele, (ou à frente, se estivermos falando de alguém que busca um simples serviço de reprografia ou de autenticação de documentos). Este filme tocou-me de forma inquietante e curativa e percebi que, à segurança e estabilidade da carreira pública deveria esforçar-me por aliar algo inusual, insólito, raro. Percebi logo cedo que a tentação por um açodamento da profundidade de experimentar qualquer reação emocional seria uma constante e cambiante sereia. Via esta sereia abocanhar e destroçar a todos os usuários do serviço do cartório quando estes não eram olhados nos olhos pelos funcionários. Este esforço – luta contínua na areia movediça quando o melhor teria sido ficar quieto boiando - seria o único guia na noite escura que é descobrir na vida quem, de fato, se é e para quê se vive, se é que existe este tal para quê.
Desenvolvi uma curiosidade louca pelo cinema depois deste tabefe que foi o filme japonês. Percebi que ali havia mais que entretenimento. Muitos já terão notado o mesmo e nisto não há revelação nenhuma, devo reconhecê-lo. Mas o que afirmo é que houve uma revelação para mim, uma vez que é próprio das revelações só serem feitas a uma pessoa por vez – traço comum destas com os delírios. Assim, devo meu reconhecimento, mais que agradecimento, a esta descoberta (uma vez que nem sempre nosso encontro foi tão aconchegante e cordato). Não tive influência alguma neste hábito. Os cinemas eram lugares pouco convidativos no bairro onde eu morava e eram vistos como pontos perigosos para os jovens por um certo hábito, que nunca pude comprovar, de uso ou venda de drogas em algumas salas e pelo conteúdo tentador e desviante de muitas sessões. Havia também um zelador, o seu Maneco, que diziam ser chegado em meninos, motivo a mais para que os cuidadores proscrevessem a freqüência àquela sala de pecados. Apesar de nunca ter sabido muito mais sobre o seu Maneco, que era também o responsável pela bilheteria e arrumação da pequena sala de aproximadamente setenta lugares – setenta desconfortáveis assentos - guardo e sempre guardarei uma boa lembrança do modo decidido e respeitoso com que ele apertava o ombro dos garotos e os cumprimentava mirando na face. A mim me interessavam mais as histórias que corriam na tela, especialmente na sessão de terça-feira, dia dos filmes clássicos e antigos, onde a meia-entrada de estudante permitia ver duas películas.
Devo creditar que aprendi sobre sexo no cinema. Antes disto, era apenas o capricho repetitivo das manipulações que a garotada descobre nas conversas quando se joga bolinha de gude ou baralho, quando se tenta dormir e um despertar quase genético aquece toda a área que vai do abdome às margens internas das duas coxas. As mulheres eram vistas como objetos de desejo e como um time de lá, algo que precisava ser vencido para ser desfrutado. Não pensávamos que elas pudessem sentir desejo, ou ter anseios além do banal matrimônio glamouroso – este evento que lhes recuperaria da condição inferior de não ter o que chamavam de falo e cujo significado só fui entender muito tempo depois. As mulheres eram, enfim, aquilo no que os meninos deviam pensar, uma costela que teria valido a pena perder, visto que havia tantas outras... Mas o cinema me reapresentou o que é o sexo e o que é a mulher, ao que lhe serei eternamente grato e motivo pelo qual não nos reconciliaremos jamais. Melhor assim.
Talvez o cinema tenha sido uma fuga para suavizar a maior das dores que conhecera até aquela época: ter perdido a mãe, dona Estela, aos 12 anos. Este foi um batismo às avessas para mim. Desde então sou pagão e posso dizer que perdi a fé. Mas ganhei certo modo curvilíneo de interagir com as pessoas, um sorriso envergonhado e um aperto de mão forte - heranças que de imediato se me instalaram. Esta foi a alça da sua cama eterna que seguro ainda hoje, por isto a agarro tão firmemente. O resto da família prosseguiu como um concerto sem maestro, por isto cabe-se-lhe esta apresentação cáustica de “resto da família”, ainda que os ame a cada instante de modo variado e ainda mais intenso. Havia dito, nalgum trecho anterior, que não havia motivos para perscrutarmos no que já é estabelecido – a herança familiar, pois meu fardo é o dia de hoje e é sobre ele que opero: é atrás da bolsa roubada no dia de hoje que se deve correr. Agora já não estou tão certo assim...
Ter sabido que a tuberculose a subtraíra de nosso convívio, este mal tão já conhecido, de diagnóstico fácil e para o qual umas plenas garfadas de boa comida teriam sido a melhor forma de prevenção é algo que acrescentou em meu caráter um fino verniz – invisível e irremível – de infâmia. Os gestos graciosos, a suavização do modo matemático, justo e previsível com que nosso pai nos apresentava o destino, o seu capricho no feitio das roupas para a garotada e para as bonecas de sabugo de milho eram contrapontos benfazejos à realidade canhestra daqueles dias de iniciação na mazela da existência. As roupas e o seu cerzir vinham, sem dúvida, de algum lugar de sonhos ou do seu enfrentamento pessoal do Hades do fôlego curto e da dor que lhe transpassava o peito até as costas, da urgência por ir tossir às escondidas. Agora compreendo de forma mais heróica e rutilante aquele seu jeito de dizer que “não era nada, não; só bobeira do tempo virado”, que eu devia era me preocupar com minhas lições e com meus irmãozinhos e que devíamos tomar cuidado para secar bem o cabelo ao sair do banho.
Meu irmão mais novo por certo não entendia nada daquilo tudo e só queria saber de brincar com a caçula de dois anos e meio, ainda imersa nalgum pântano hermético das fábulas menineiras.
Veio, assim, da necessidade de suprir o vácuo deixado pelas roupas vendidas pela minha mãe, pelo ralear das provisões que mantinham nossa casa, a (minha) decisão por começar a trabalhar, o que foi arranjado pelo patrão do meu pai, Dr. Leônidas, que tinha conhecimento com os advogados e com o pessoal da prefeitura. Passei a ver os dias como um amontoado de números, tintas, filas e com uma torcida angustiante pelo caminhar desatinado dos ponteiros do relógio pachorrento sobre a caixa quadrada, amarelo-ferrugem e indiferente onde se batia o ponto.
Da própria improficuidade de tantos dias baldados, malogrados e repetitivos surgiu a necessidade de mudança, como um deserto clama por brisa, como um outeiro que pretendesse revelar paisagens inauditas. Havia um câncer que queria carcomer o estilo sonolento e apoquentado daquela maçaroca de dias que se empurravam uns aos outros na circularidade catracal do calendário. Fitando-o, percebi que ou o enfrentaria agora - consciente e integro - ou teria que fazer as contas com uma realidade cuja gravitação só longos anos de senilidade e indiferença o me reapresentariam sob um aspecto um tanto mais carnal, carnívoro e metastático. O convite a repensar a vida vinha do olhar perscrutador e folgazão da menina que decorava o tal calendário, carregando uma cesta de café da manhã com três gatinhos dourados recém chegados ao mundo.
Decidi, se é que foi assim que realmente aconteceu, a revirar os tantos livros de nossa pequena biblioteca do cartório. Ali havia cerca de cinqüenta ou sessenta livros, a maioria dos quais doações dos próprios funcionários, alguns clássicos vendidos nas bancas de jornal empoeirados mas em perfeito estado de conservação (existe algo mais triste que isto?). Estes companheiros passaram a ser os lenitivos para os minutos que – por sua escassez e desagregação - não serviam para mais nada entre a folga do almoço e o recobrar do ritmo para a tarde na repartição.
Os livros conversavam comigo de um modo que as pessoas não estavam habituadas a fazer. Ou talvez o contrário: não estive, até então, tão habituado a escutar as pessoas com a mesma nitidez e disposição de espírito como agora fazia com os romances. Sim, os romances, mais até que os contos e que os poemas - apesar da forma e força verticalizada e bombástica destas micro-estrelas – cingiam-me de modo nebuloso e assombroso e contra eles não consegui jamais me escudar. Não posso dizer se a influência dos romances foi-me maior na constituição do caráter que as tardes que se esticavam languidamente noite afora pelas salas do cinema. Sei que o prazer de trazer a tela nas minhas mãos, na minha mente - que se ria de todos que continuavam a seguir a rotina ao passo que eu me permitia aqueles momentos vitais de alienação - era da ordem do voluptuoso e estupefativo. Afirmo, no entanto, que a algazarra e a plêiade de minhas defectibilidades e vícios de natureza são semelhantes a tantos personagens da literatura que me sinto, sem nenhum prejuízo de todas as qualidades luminosas que minha mãe me outorgara desde infante, uma cria de páginas de diferentes autores agindo simultânea e descoordenadamente. Um Frankenstein de papel.
O apelo à escrita, antes de um gesto de fruição estética, constitui, desta feita, uma razoável e compreensível busca de agir no único planeta onde posso sobreviver algum tempo sem máscaras, escafandros ou rede de segurança.
Esta dupla tentação, de um lado a realidade a cobrar-me ganhar o pão, dizer coisas compreensíveis para pessoas que as queriam compreender, saber o preço do peixe, do veludo e da aguarrás e, por outro lado, a magia de viver alheado entre livros, músicas e amores impossíveis constituiria a minha saga intermitente, a febre terça maligna daqueles anos futuros.
Fui obrigado – tem algum valor esta palavra a não ser quando procuramos agradecer? – a cursar a faculdade de economia e contabilidade. Novamente o curso retilíneo e confiável dos números, a segurança férrea da calculadora, o seu deslindar de possibilidades apenas previsíveis foram uma certa forma de ancoradouro à insegurança dos encontros que poderiam ter sido e que não ocorreram em minha juventude. Os livros e os filmes cosiam uma música em contratempo com a realidade chapada, factual. Passei por uma fase de obsessões. Durou bem mais que a escrita desta última frase. Ah, se durou... Percebi, por volta dos dezessete ou dezoito anos, que assistia a vida. Era isto: um personagem - talvez o central, vá lá – de minha vida. Não existia isto que acabei de deitar à folha: minha vida.
Comecei a freqüentar outras bibliotecas e interessei-me por livros que contassem como as pessoas se comportavam, como deveriam se portar e - me interessava ainda mais que isto – pelo modo como elas deslizavam, como se tornavam ridículas. Claro, havia algo de sádico e brincalhão por esta preferência pelo que é risível e burlesco, até grotesco. Mas era mais que isto: era a percepção instantânea que mais por conta do que é defeituoso e menos pelo que é sadio e aprazível é que alguém pode se afirmar como indivíduo – este treco inusitado que se não pode aquinhoar ou superar.
Acabei me deparando com os estudos sobre ética. Não sei se foi um bom negócio: antes vivia menos preocupado e de forma mais fluente, mais direta e natural. Mas me carcomia conceber como nós sempre estivemos – e permanecemos - propensos a uma intimidade e pessoalidade na decisão do que é certo e errado, geralmente fazendo o prato da balança pender para o lado mais querido, ainda que o julgássemos mesquinho e egoísta. E pela tendência à repetição destas escolhas, ainda que reconhecêssemos o caráter aviltoso desta neurose. Ser rato daquelas bibliotecas e das angústias daquelas ficções, tomar o café ralo com bolacha água e sal que era servido na Municipal, resultou-me em motivo dobrado para a gastrite que pouco mais tarde me açoitaria sem indulgência. Resultou-me outra dor, esta maior: a de ser professor convidado da faculdade de medicina e de ter Letícia na segunda fileira, na primeira aula daquele semestre luminal que estava por começar. E a vergonha por tê-la encontrado de modo diferente do planejado, sem minha prontificação por encontrá-la, sem meu esforço deliberado. A vida se adiava mais uma vez. A vida radiava mais uma vez. A vida – a que eu planejara - era subtraída de mim como uma bolsa roubada e atirada ao ar longe de meu alcance e eu voltava a escrever sobre ela. Deveria ter corrido mais? Deveria ter buscado o assaltante, ainda que ele me levasse a vitalidade deste corpo? Ainda que me ferisse?
Letícia erguia o braço e lançava uma pergunta ao ar. Estava decidido a honrar todas as horas em que vaguei pelos cinemas, pelas bibliotecas, os infinitos gastos em me tornar um perito em esquisitices – se o normal era a repetição maquinal das contagens de folhas e autenticações. Concentro-me por ouvi-la: esta bolsa não deixaria escapar. Meu espírito estava dentro dela.

Quem paga a conta?

Repensando a influência da propaganda da indústria farmacêutica na conduta médica.

Recebi a visita de um grande amigo de faculdade recentemente.  Chegou numa quarta-feira chuvosa e tentei desmarcar parte dos compromissos para almoçarmos juntos uma bela feijoada mineira.  Veio de uma cidade do nordeste, onde fixou residência e contou-me, além das novidades ensolaradas do seu filho que havia acabado de chegar, que viera aproveitar a oportunidade de um lançamento de anticoncepcional para fazer compras em São Paulo e visitar a família em Piracicaba.  Convidou-me para o jantar de lançamento deste produto, em um dos melhores hotéis da capital paulistana, onde sua estada seria paga pelo grupo farmacêutico, bem como as passagens aéreas e despesas com táxis e refeições.  Chegamos atrasados devido ao trânsito pela visita de uma figura internacional à nossa já congestionada Sampa. 

Tivemos tempo de escutar à última pergunta ao palestrante internacional: “Será que o fármaco X poderia ajudar a um quarto grupo de pacientes: os que etc., etc.?” Confesso que fiquei fascinado com a resposta do palestrante: “Não, por isso, isso e isso”.  Pensei comigo: “Uau, quanta sinceridade!”.  Logo veio a segunda parte da resposta: “A não ser que... aí sim o nosso lançamento poderá ser utilizado”.  Entendi de imediato: tratava-se de uma estratégica forma de responder que sim, apesar de ter, aparentemente, respondido que não. 

Assistimos, em seguida, a um espetáculo de teatro, divertidíssimo, cujo tema era a patologia para a qual tal remédio estava indicado e todas as situações embaraçosas que o não-tratamento poderia causar – o casamento entre a música e a velocidade da peça foi impressionante.  O autor reportou ter levado dois meses e meio entre a concepção e o preparo do espetáculo.  Notei, sob um ponto de vista diverso, através da arte, a importância do tratamento: as informações entravam por todos os buracos da face e pela pele – na temperatura agradável da noite no imenso e, ainda assim, aconchegante salão. 

O fato de ser psiquiatra, ou seja, um espião naquele simpósio de ginecologia, deixou-me com a pulga atrás da orelha: fiquei preocupado em como a propaganda poderia influenciar nas decisões clínicas.  Depois de alguns minutos relaxei e pensei: “Ah, são todos médicos conscientes, não vão se deixar levar por estas sutilezas...”.  Notei que a luz laranja deixava o ambiente com uma característica etérea, e, de fato, as pessoas e as taças que aguardavam o vinho importado ficavam bem mais harmoniosas sob seu efeito.  Os trajes alinhados indicavam que se tratava de um evento e tanto.

Logo chegou a parte mais aguardada pela platéia (e por mim, admito): o coquetel!!! Devo confidenciar que não tenho capacidade para redigir algo mais poético que o cardápio daquele jantar e que foi com maestria que o chef transformou-o em realidade.  Só para instigar, transcrevo a sobremesa: “Mousse de chocolate branco recheado com creme de pistache, servido com geléia de pistache e hortelã, ganache de laranja e tuille de chocolate branco”.  Peço desculpas se, involuntariamente, colaborei com a quebra do regime de algum dos leitores. 

Olho para o teto, divagando um pouco mais na questão filosófica que se me apresentou durante a noite e relembro o Prof. Pacheco e Silva que dizia ser uma pena que o médico só descubra que foi um filósofo no final da vida.  Tal lembrança me alivia e faz com que aprecie o largo tabuleiro em forma de jogo da velha que compõe o requintado lustre com um novo olhar: realmente estamos falando de um jogo a ser travado entre a pressão da indústria e o bom senso clínico.  Se tais estratégias de marketing não funcionassem, porque seriam adotadas? É lícito uma empresa visar o lucro, mas quais são os limites desta equação?

Fiquei satisfeito com a pasta de couro ecológico que recebi como souvenir, apesar de não saber de fato como utilizá-la, mas, certamente, a caneta com que fomos brindados terá lugar na minha maleta médica.

Acordei com o nome do medicamento na lembrança!  Impossível, como enfiaram este intruso na minha cabeça?!? Comentei com meus colegas de consultório que tinha ido a um jantar magnífico no dia anterior, e, entre risos, disse ser uma pena não ter como agradecer prescrevendo a tal medicação, uma vez que não faz parte do meu ramo de atuação. 

Lembrei do último congresso de psiquiatria, da “Psicolândia” como chamou o Prof. Ronaldo Laranjeira, referindo-se ao parque de diversões que a indústria monta para alimentar/divertir/brindar/informar(?) os médicos.  Recordo-me da mesa redonda onde a ética na relação com a indústria farmacêutica foi discutida: é óbvio que a pesquisa farmacológica merece ser aplaudida e que as empresas têm uma relação unha e carne com o desenvolvimento das terapêuticas - mas qual é o limite entre a admiração e o encantamento?

A literatura mostra que quanto maior a proximidade com as empresas (receber presentes, visitas de representantes, viagens a “congressos de atualização”), menor a percepção do médico de estar sendo afetado por estas estratégias.  Também é importante notar que a maioria dos médicos não se sente manipulada pela propaganda, mas admite que ela pode funcionar com os outros médicos (Uau! Que paradoxo! Só eu é que sou miolo mole?!).

O psiquiatra Prof. Dr. Leon Garcia alertou para o fato de que, depois de um congresso no Taiti, pago pela indústria, a prescrição do medicamento alvo subiu de 200 a 400% entre os que participaram do evento!!!  Coincidência?! Será que os médicos não sabiam da existência do fármaco?!

Um artigo interessante sobre a questão, “Who pays for the pizza? Redefining the relationships between doctors and drug companies” alertou-me para um fato: se o jantar valeu para o médico e para a indústria, alguém deve ter pago a conta: quem terá sido?

Qual a melhor forma de interação com a indústria farmacológica, quais os limites saudáveis desta publicidade: eis as questões com que me deparei, ainda sem respostas (dizem os filósofos que mais importante que a resposta certa é a pergunta certa).

Por um tempo, não receberei visitas dos amistosos representantes de laboratórios, mas peço compreensão: preciso “desimantar minha bússola”, para tanto, sugeriram-me Machado de Assis, Dostoievski e Hermann Hesse.

No final das contas, a feijoada mineira me caiu bem mais leve que o suflê de pistache...



Para quem quiser ler mais:
1.              Moynihan R.  “Who pays for the pizza? Redefining the relationships between doctors and drug companies”. BMJ  2003;326:1189-1192 (31 May). Disponível em: http://www.bmj.com/cgi/content/full/326/7400/1189

2.              Campbell EG, Gruen RL, Mountford J, Miller LG, Cleary PD, Blumenthal D. A national survey of physician-industry relationships. N Engl J Med. 2007 Apr 26;356(17):1742-50. 

Ruas paulistanas


(...nas primeiras vezes que estive em Sampa, achei tudo muito parecido com Gotham City, apesar de nunca ter estado por lá...).
Alguém terá escrito que a solução para São Paulo está numa espécie de integração de universidade pública e comunidade e em reverter os ganhos das novas tecnologias em benefícios para a esta última. Achei isto tão fantástico e absurdo que me aventurei a pensar sobre soluções para a cidade. Mais ou menos como Raul Seixas teria resolvido nossos problemas alugando o Brasil.  Confesso, de antemão, que dei com os burros n'água.
Estas divagações passam pela experiência invulgar de conseguir visualizar a beleza única da cidade.  Que não é exatamente beleza. É sensualidade.  Desajeitada sensualidade, como as meninas deselegantes da música de Caetano, mas, por isto mesmo, atraentes.  A falta imperativa de noção de conjunto, nos faz distanciar cada vez mais e mais para conseguir ter uma real visada panorâmica.  Com a distância é mais fácil antever o futuro da cidade e o nosso mesmo. Serão indissociáveis?
Em épocas de enchentes, trânsito mais inacreditável que o caos habitual, ano eleitoral e logo após o aniversário da cidade, comecei a me questionar se é possível pensar em soluções para São Paulo. E já digo de cara: não, não tem mesmo jeito... Mas quem sou eu?  Sou apenas um sujeito que mora em São Paulo, sequer nasci aqui.  Mas é inquestionável que, mesmo interiorano, com o tempo, vai-se adquirindo sotaques e ares paulistanos.  Desde o "meu!" até uma certa individualidade exacerbada que não se nota no interior.  Faces do mesmo "Meu!".  O fato é que dificilmente conseguimos soluções para os nossos próprios questionamentos, daí que uma delas é cuidar dos problemas que não teremos mesmo como resolver.
Mas vamos lá: inicialmente, é importante entendermos, nós paulistanos e todos os que o são por afinidade, que a cidade é um organismo vivo, uma mini-Gaia. Ou seja, perdurará, felizmente ou não, por mais tempo do que nós mesmos: o óbvio que nos assombra.  Assim, descobrirá, com, sem ou apesar da nossa interferência, soluções que podem nos parecer incongruentes numa primeira visada, mas que encontrarão seu modus operandi no longo termo.  Por exemplo: ainda que não consigamos interferir no regime de chuvas e nas consequentes enchentes e, desta feita, fazer a cidade escoar e fluir do modo como gostaríamos, o problema tende a se camuflar no longo prazo.  Como? Mais pessoas tentarão organizar seu trabalho de forma compatível com o caos urbano, procurando viver em bairros e não em toda a extensão metropolitana. A convivência em bairros pode fazer com que as pessoas mantenham uma relação mais visceral com seus vizinhos, com o açougueiro, com o eletricista do quarteirão ao lado.  Ao invés de 200 lojas Starbucks, o paulistano pode começar a apreciar o café feito de forma quase artesanal num pequeno empório, distante de sua casa apenas 10 minutos caminhando.  Não teríamos que suportar todos os pequenos mercados virando "Pão de Açúcar".  O teletrabalho pode ser, consequentemente, impulsionado.  Menos trânsito, menos dinheiro gasto com estacionamentos e Zona Azul (para depois ser mal utilizado...), menos risco de violência nos semáforos. Mais tempo em casa para ler aquele livro que você comprou com a esperança de um dia ter tempo para folhear...
  
São Paulo pode não ser cidade para uma vida toda (e, geralmente, não é!). Mas para quem por aqui já passou é difícil imaginar ter vivido sem a experiência de ser paulistano. Muitas pessoas pensam em um dia sair da capital, morar na praia, deixar a loucura normal já que a beleza da música "Sampa" não é suficiente para iluminar a crackolândia, quem dirá tantos outros bairros esquecidos, violentos e violentados...  Ok, que algumas pessoas possam, sim, mudar de cidade, levar o aprendizado de tantos anos deste ambiente competitivo  para outras regiões mais privadas e que se beneficiariam enormemente da técnica de empresários, cozinheiros, advogados, webdesigners. Tão tangencial quanto realizável.  O fato é que a migração para a capital já não é tão intensa quanto nas décadas de 70 e 80 e as pessoas já não tem o mesmo número de filhos (sem querer parecer neo-malthusiano, o índice de filhos por mulheres paulistanas é de 2,1, sendo que o necessário para manter a população estável é 2,3). Por outro lado, cidades como Fortaleza, Recife, Curitiba e Salvador têm disparado nos censos habitacionais das últimas décadas, fruto de uma migração cuja tendência recente é intra-estadual e não sãopaulo-rio-cêntrica. Ok, podemos soltar um catártico: Ufa!
São Paulo é uma cidade comparável. Longe uns 400 km de ser maravilhosa. Mas se parece com a cidade onde Severino foi criado, no interior do Sergipe. Tem um bairro e outro com cara de cidade pequena e do qual seus moradores se orgulham de fazer parte, como é o caso da Mooca e da Vila Mariana. Lá as pessoas continuam usando os serviços do sapateiro, seu Ademir, e continuam mandando seus ferros de passar roupa para o conserto.  São Paulo se parece com algumas cidades italianas, quando você entra nas cantinas e ouve o barulho de bandejas de metal sendo propositadamente lançados ao chão (a diferença é que a pizza paulistana é melhor...) Tem um bairro extraviado de Tokyo. Segue o rumo de ser cosmopolita moderna de Londres e NY, mas de um modo latino-brasileiro.  Teria a ginga do Rio, se não fosse tão tímida e tão apressada. Tem lugares tão violentos como Recife e Rondônia e tem Centro de Tradição Gaúcha.  Só não se parece mesmo com Brasília e suas ruas todas planejadas para ninguém andar pela cidade.  É um self-service de lembranças da infância,  com gosto de suco de tamarindo: arde a boca em sua acidez disfarçada sob o manto potente das lembranças de todos os lugares quase paulistanos espalhados pelo mundo.
Um texto sem pé nem cabeça, ora com passagens de auto-relato, ora com estatísticas, cheio de absurdos e esperanças vãs?  Se for sobre São Paulo, até que faz sentido. Ainda que tão sem sentido quanto aquela senhora que apareceu chorando no noticiário quando secou o lago do Parque Aclimação e ela se sentiu tão desterrada quando os peixes afogados no ar...  Tão sem sentido quanto os paulistanos "da gema" que chamam de baianos todos os com sotaques diferentes do seu, e que sonham em um dia, passar quatro ou cinco dias por ano na atmosfera luminosa e temperada da Bahia - e ficarem muito loucos só para sair da loucura.  Uma cidade que tem vergonha de cantar sua beleza, menina nova sob olhares indiscretos de marmanjos. E que se faz poesia pelo simples ajuntamento de suas belezas. Figo turco do Mercado Municipal, esfiha da Casa Garabed, pôr do Sol no Ibira, visto a partir da Sena Madureira, Parada Gay, passeio a cavalo na Serra da Cantareira, perambular pelas lojas de música da Teodoro Sampaio, perder uma tarde nos sebos do Braz, um show de Jazz num botequim desajeitado, um mega-show do AC/DC, a feira de flores, tantas feiras de rua, uma estação chamada Luz e uma senhora chorando os peixes afogados no ar...

Estrelas sob a pele quente - Capítulo V (Estrelas sob a pele quente)


(Fragmentos de um romance virtual).

Estrelas sob a pele quente

Noite. Estrelas por trezentos e sessenta graus. Luar. Noite. Terra sob os pés. Grama sobre a terra. Rasteira. Poeiras e estrelas. Noite. Algazarra ao longe. Fogueira. Pessoas em reunião. Vento. Caminhada. Vento. Terra entre o vento. Poeira. Carne sobre o fogo. Fogo sob a carne. Noite. Bordões na música ao longe. Epiderme. Frio. Ossos. Friúme. Pele. Fria. Agasalho. Quentume sobre a pele. Quentume sob a epiderme até os ossos. Outra pele. Outra carne. Cumprimentos. Encontros e sorrisos. Abraços. Bebida. Uma festa. Uma festa! Noite! Fotografias. Aguardente. Memórias, histórias. Outra aguardente. Calor. Mais noite, a mesma noite, já outra noite... Sono. Noite. Sonho. Estrelas sob a pele quente. Noite, quase dia, ainda noite. Janela entreaberta, pássaro, canto. Pássaro, canto, fotografia, relevo. Distância, canto, pássaro. Lembrança, nostalgia, águas, pássaro, fuga, chuva. Raios, águas, solidão, chuva. Janela fechada, medo, tremor. Arco-íris, luminosidade, fresta, janela, retorno, confiança, plantas, plenitude, pássaro. Dia.

A literatura, os encontros, as memórias, sem os verbos, são. Eu, não. Mesmo quando repouso: repouso. Quando durmo: sonho, respiro, perco o tempo, me coço, me viro, durmo. Quando tento, sem sucesso, meditar: medito ou me arregalo - mas é sempre o verbo, este canalha, este amante, este gato arisco. Não sou sem o verbo. Sem o verbo, nada. Apenas o que me é externo, apenas o que me dispensa, ainda que me seja tão precioso, cardinal.

Estou assim sem a menor condição de traçar qualquer panorama do meu espírito e da disposição interna do meu ânimo. Francamente, não sei o que estou fazendo aqui. Retorno à escrita primitiva: volto ao papel e à caneta-tinteiro em busca de escorregões diferentes da máquina arcaica de cerzir tramas. Aqui, custando-me cara cada palavra, a inspiração há de se revelar, ainda que a contragosto. Desconfio da inspiração. Também nada posso contra ela. A busca de originalidade não se revela facilmente. A busca de originalidade não se revela. A busca de originalidade, não: a busca. Esbarramos nela como que por acaso. Não acredito que possamos atingi-la, assim, de forma calculada e obstinada. Podemos, quando muito, preparar o ninho, colocá-lo no local mais alto e arejado da casa, no peitoril externo de frente para a aurora. Também para o amor, o mesmo é válido. Há que se custar cara cada palavra que se arvore a conduzir, em circunvoluções, a amar. Fora da autenticidade, no entanto, ainda há muito que se viver, já fora do querer...

Há que ser forjada em ouro cada moeda que se queira trocar por uma palavra de fruição, de afeição. Ou melhor, em cobre. Cobre da cor da pitanga, cobre da cor da moeda vulgar, da cor da moeda nobre. Cobre, elemento químico de número 29. A idade que tem Letícia, mulher de cobre. Mulher de carne e osso. Mulher de pitanga. Mulher química. Mulher elemental. Mulher. Esta palavra tão repetida e original a seu modo. Esta palavra tão forte quanto a noite ou quanto o dia. Esta palavra mais forte que o verbo. Esta palavra mulher.

Regrido muitíssimos anos no tempo, esqueço deste hoje onde os cabelos brancos, a vista baça e a pele amarrotada se apossaram – coronéis da geografia árida do meu corpo. Sou novamente sonhador e revejo Letícia e tudo que vivi. Os nanquins nas paredes me fazem companhia.

A vista que se dirige para dentro arde frente ao Sol de uma época distante. Arde frente à imprevisibilidade de tudo o que foi. Do modo como foi. Arde, não mais a língua seca, como que de papagaio, mas a face lívida e úmida, de espanto, escárnio e de alegria que tudo tenha ocorrido exatamente como foi e não de outro modo. A face pálida, encantada e líquida de lágrimas.

O papagaio está morto, e custou-me muito sacrificá-lo, mesmo por uma causa tão invulgar. A única certeza que me resta não é mais o sucessivo taramelar, mas o enlevo, o arroubo, o êxtase daquilo que é estar vivo. Ainda que a excepcional virtude que reste à vida seja a de sua característica luminosa em certos dias viçosos. A partir desta experimentação, todos os caminhos são, moto-perpétuo, adornados, alumiados, embevecidos. Ainda que isto já tenha sido há tantos anos...

Estou mais forte e indiferente à solidão, esta companheira que me esquenta o café com leite e me serve as torradas pontualmente às cinco e meia da manhã e que aprendeu, às duras penas, a não me contar mais nenhuma notícia do mundo lá fora.

A história tem esta face brincalhona e desmazelada e que nos torna avós de nós mesmos: éramos mais jovens nos tempos antigos e hoje, tempos modernos, somos mais velhos – farpa simples, certeira e dirão, por vezes, curativa... Estou mais sensível à beleza, à delicadeza da música e do estrépito das águas sob a ponte na fazenda. Borboletas espaciais brincam em tons alaranjados, azulados, avermelhados, embriagadas em seu vôo lépido e descontínuo. Despretensiosamente. Aprendi a admirar a despretensão...

Novamente é maio. Nota-se uma poeira cúprea, ferruginosamente cúprea, dançando sob a ação coruscante da claridade matinal acolhedora e amarelada dos dias de outono. Letícia resiste em cada vôo das borboletas vibrantes. É refletida nas multicores de seus arcos e pétalas, nos olhos devassadores que se escondem nos desenhos fractais de suas asas – túneis para tempos idos, perdidos, sonhados. Ainda aguardo o ano todo pela chegada destas aladas deusas caleidoscópicas... Noite... Dia... Elas voltam a cada mês de maio. Então perpetro minha última e particular vingança: não preciso dos verbos para juntar-me a Letícia - bastam-me as borboletas.