Não, definitivamente não
Era a resposta caso perguntassem
Se era bela:
Grande demais, desengonçada
Carnuda em excesso
E, paradoxo: sem volúpia.
Simpática era como a definiam
E era isto o que tanto afugentava
Os homens
Não que ser antipática fosse solução
Mas era um motivo a mais:
Não se indispor com alguém tão gentil
Até quando acertava, recendia a erro
Algumas pessoas são azaradas:
Carma ou destino, escolha é que não é
Ou será que é?
Procurou aconselhamento com um guru
E este lhe recomendou um cirurgião
O cirurgião indicou trocar de guru
A pele não era escura o suficiente
E tampouco clara
Parecia negra de menos e branca de menos
O cabelo indeciso
Entre enrolar ou não
E não cedia ao vento
Mas era invejada pelo seu sorriso
Não que este fosse bonito,
Que nela, nada era
Mas fazia uma contraluz com sua testa
Que, dado o amarelado dos olhos,
Eram as únicas coisas nela a brilhar
Ainda assim, dum contraste desconjuntado
Beleza de um engarrafamento visto de helicóptero
O que a tornava uma personagem
De um exercício de escrita
Já que os poemas se guardam,
Covardemente,
A louvar o que é belo
Era sua confiança
De que um dia, por azar,
Iria encontrar um grande amor
O grande amor é o mais humano dos erros coletivos
Pois que, para ela,
Só podia ser azar mesmo,
Já que, dali em diante, por ciúmes
Perderia a sua ultima e grande virtude:
A tranqüilidade.
E eis que aconteceu.
Faz dois anos na data de hoje
Um minuto de silêncio das emoções
Um cenário vulcânico respingando a querosene
Entregar-se no escuro
E lamentar-se na alvorada
Indistinção de cores, peles e aromas
Duplo feito uno:
Quem ama o feio,
Que o ame bem.
Amor
Descolamento que ultrapassa a estética.
Não é questão de sorte
Escolha ou justiça:
É pura abdução.
5.8.11
2.8.11
Nuvens
Nuvens
Já disseram que eram feitas de algodão
Mas eu acho que não
E falaram que eram mágoas
De cima ou de baixo veio tanta água?
Numa eu vi uma bola
Joana, um carrapato a esmo
Francisco, o olho do dinossauro
E Marcela não viu nada, só nuvem mesmo
Lembra-me o cabelo de Walmor Chagas
A laranjada, Deus me perdoe
Incêndio na floresta
Nuvem negra é ovelha manca da insônia
Aquela ali escura, carregada
Lá adiante uma clara, fofinha, arregalada
Outra ligeira camada de fumaça
Quando começarão a derrocada?
Um balão atravessa o verniz etéreo
Outro avião rompe a massa amorfa
Sócrates fica ali no meio, desviando-se de tudo
Antigamente seu condomínio era mais seguro
Não quero morar nas nuvens
Ainda que me custe a licença poética
Mas é lá onde se paga, não é boato
Aluguel mais barato
E disseram que a tal negociação
Era nebulosa
Mas as que se fazem cá na terra, ao meio dia
Eminência parda, colarinho branco, vaca fria
Explicações do ciclo da vida
Terra e Gaia, evaporar-se das águas
Só para depois, densas, banhar-nos em bica
O que, afinal, precisamente, as justifica?
Suas conchas, revoltas e compartimentos
Recôncavos dos apaixonados e ansiosos
Servem - servem? - para recordarmos, pasmos
Noves fora zero: somos nós os nebulosos
Que a língua nos impeça de chover
Vá lá, aceitamos com um calmante
Mas que a física nos dificulte sublimar
Isto sim, é inquietante
É que somos densos, híbridos
Pretensiosos, confusos, voluntariosos demais...
Mas temos sex appeal - arre!
E outros dons da carne...
"Do Vidigal se vê o mar e as ilhas"
O sublime visto com pés e nuca na areia
Fazer as contas é não dar nó sem ponto:
Melhor - por ora - o chão e pronto.
Já disseram que eram feitas de algodão
Mas eu acho que não
E falaram que eram mágoas
De cima ou de baixo veio tanta água?
Numa eu vi uma bola
Joana, um carrapato a esmo
Francisco, o olho do dinossauro
E Marcela não viu nada, só nuvem mesmo
Lembra-me o cabelo de Walmor Chagas
A laranjada, Deus me perdoe
Incêndio na floresta
Nuvem negra é ovelha manca da insônia
Aquela ali escura, carregada
Lá adiante uma clara, fofinha, arregalada
Outra ligeira camada de fumaça
Quando começarão a derrocada?
Um balão atravessa o verniz etéreo
Outro avião rompe a massa amorfa
Sócrates fica ali no meio, desviando-se de tudo
Antigamente seu condomínio era mais seguro
Não quero morar nas nuvens
Ainda que me custe a licença poética
Mas é lá onde se paga, não é boato
Aluguel mais barato
E disseram que a tal negociação
Era nebulosa
Mas as que se fazem cá na terra, ao meio dia
Eminência parda, colarinho branco, vaca fria
Explicações do ciclo da vida
Terra e Gaia, evaporar-se das águas
Só para depois, densas, banhar-nos em bica
O que, afinal, precisamente, as justifica?
Suas conchas, revoltas e compartimentos
Recôncavos dos apaixonados e ansiosos
Servem - servem? - para recordarmos, pasmos
Noves fora zero: somos nós os nebulosos
Que a língua nos impeça de chover
Vá lá, aceitamos com um calmante
Mas que a física nos dificulte sublimar
Isto sim, é inquietante
É que somos densos, híbridos
Pretensiosos, confusos, voluntariosos demais...
Mas temos sex appeal - arre!
E outros dons da carne...
"Do Vidigal se vê o mar e as ilhas"
O sublime visto com pés e nuca na areia
Fazer as contas é não dar nó sem ponto:
Melhor - por ora - o chão e pronto.
1.8.11
Invenção
Não era tempo de verão
Mas, e dai?
Não era tempo de inverno
E chovia
Era outra coisa
Ciclos internos
Música gospel
E catar inspirações
Em erros
Ao redor
Era busca
E sono que não acabava
Era um verbo no presente
E empolgação
Raros suspiros
E acreditar
Ficar na duvida
Entre o otimismo e o pessimismo
Era sim
Quando, talvez,
Respirar era quiçá
Vela sedenta de parafina
E fios a queimar
E era um gesto
Explosão
E querer acordar
Uma criança insone
Tomar café de noite e
Cachaça ao amanhecer
Outro ciclo
Contorcer-se, redobrar-se
Fotos de pés descalços
Acaso ou destino
Carne e transcendência
Luz branca no começo do túnel
Céu azul no fim
Horizonte
Alguém aí já inventou
A inédita máquina de congelar
Momentos perfeitos?
Mas, e dai?
Não era tempo de inverno
E chovia
Era outra coisa
Ciclos internos
Música gospel
E catar inspirações
Em erros
Ao redor
Era busca
E sono que não acabava
Era um verbo no presente
E empolgação
Raros suspiros
E acreditar
Ficar na duvida
Entre o otimismo e o pessimismo
Era sim
Quando, talvez,
Respirar era quiçá
Vela sedenta de parafina
E fios a queimar
E era um gesto
Explosão
E querer acordar
Uma criança insone
Tomar café de noite e
Cachaça ao amanhecer
Outro ciclo
Contorcer-se, redobrar-se
Fotos de pés descalços
Acaso ou destino
Carne e transcendência
Luz branca no começo do túnel
Céu azul no fim
Horizonte
Alguém aí já inventou
A inédita máquina de congelar
Momentos perfeitos?
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