5.8.11

Escalafobética

Não, definitivamente não
Era a resposta caso perguntassem
Se era bela:
Grande demais, desengonçada
Carnuda em excesso

E, paradoxo: sem volúpia.

Simpática era como a definiam
E era isto o que tanto afugentava
Os homens
Não que ser antipática fosse solução
Mas era um motivo a mais:
Não se indispor com alguém tão gentil

Até quando acertava, recendia a erro

Algumas pessoas são azaradas:
Carma ou destino, escolha é que não é
Ou será que é?
Procurou aconselhamento com um guru
E este lhe recomendou um cirurgião

O cirurgião indicou trocar de guru

A pele não era escura o suficiente
E tampouco clara
Parecia negra de menos e branca de menos
O cabelo indeciso
Entre enrolar ou não
E não cedia ao vento

Mas era invejada pelo seu sorriso

Não que este fosse bonito,
Que nela, nada era
Mas fazia uma contraluz com sua testa
Que, dado o amarelado dos olhos,
Eram as únicas coisas nela a brilhar
Ainda assim, dum contraste desconjuntado

Beleza de um engarrafamento visto de helicóptero

O que a tornava uma personagem
De um exercício de escrita
Já que os poemas se guardam,
Covardemente,
A louvar o que é belo
Era sua confiança
De que um dia, por azar,
Iria encontrar um grande amor

O grande amor é o mais humano dos erros coletivos

Pois que, para ela,
Só podia ser azar mesmo,
Já que, dali em diante, por ciúmes
Perderia a sua ultima e grande virtude:
A tranqüilidade.
E eis que aconteceu.
Faz dois anos na data de hoje

Um minuto de silêncio das emoções

Um cenário vulcânico respingando a querosene
Entregar-se no escuro
E lamentar-se na alvorada
Indistinção de cores, peles e aromas
Duplo feito uno:
Quem ama o feio,
Que o ame bem.

Amor
Descolamento que ultrapassa a estética.
Não é questão de sorte
Escolha ou justiça:
É pura abdução.

2.8.11

Nuvens

Nuvens

Já disseram que eram feitas de algodão
Mas eu acho que não
E falaram que eram mágoas
De cima ou de baixo veio tanta água?

Numa eu vi uma bola
Joana, um carrapato a esmo
Francisco, o olho do dinossauro
E Marcela não viu nada, só nuvem mesmo

Lembra-me o cabelo de Walmor Chagas
A laranjada, Deus me perdoe
Incêndio na floresta
Nuvem negra é ovelha manca da insônia

Aquela ali escura, carregada
Lá adiante uma clara, fofinha, arregalada
Outra ligeira camada de fumaça
Quando começarão a derrocada?

Um balão atravessa o verniz etéreo
Outro avião rompe a massa amorfa
Sócrates fica ali no meio, desviando-se de tudo
Antigamente seu condomínio era mais seguro

Não quero morar nas nuvens
Ainda que me custe a licença poética
Mas é lá onde se paga, não é boato
Aluguel mais barato

E disseram que a tal negociação
Era nebulosa
Mas as que se fazem cá na terra, ao meio dia
Eminência parda, colarinho branco, vaca fria

Explicações do ciclo da vida
Terra e Gaia, evaporar-se das águas
Só para depois, densas, banhar-nos em bica
O que, afinal, precisamente, as justifica?

Suas conchas, revoltas e compartimentos
Recôncavos dos apaixonados e ansiosos
Servem - servem? - para recordarmos, pasmos
Noves fora zero: somos nós os nebulosos

Que a língua nos impeça de chover
Vá lá, aceitamos com um calmante
Mas que a física nos dificulte sublimar
Isto sim, é inquietante

É que somos densos, híbridos
Pretensiosos, confusos, voluntariosos demais...
Mas temos sex appeal - arre!
E outros dons da carne...

"Do Vidigal se vê o mar e as ilhas"
O sublime visto com pés e nuca na areia
Fazer as contas é não dar nó sem ponto:
Melhor - por ora - o chão e pronto.

1.8.11

Invenção

Não era tempo de verão
Mas, e dai?
Não era tempo de inverno
E chovia

Era outra coisa
Ciclos internos
Música gospel
E catar inspirações
Em erros
Ao redor

Era busca
E sono que não acabava
Era um verbo no presente
E empolgação
Raros suspiros
E acreditar

Ficar na duvida
Entre o otimismo e o pessimismo
Era sim
Quando, talvez,
Respirar era quiçá
Vela sedenta de parafina
E fios a queimar

E era um gesto
Explosão
E querer acordar
Uma criança insone
Tomar café de noite e
Cachaça ao amanhecer
Outro ciclo
Contorcer-se, redobrar-se

Fotos de pés descalços
Acaso ou destino
Carne e transcendência
Luz branca no começo do túnel
Céu azul no fim
Horizonte

Alguém aí já inventou
A inédita máquina de congelar
Momentos perfeitos?