31.1.11

Outras ruas paulistanas...


(...uma homenagem à capital pela voz dos taxistas paulistanos)
"...é um negócio absurdo este trânsito da 23 de maio, chega nesta hora, nesta época do ano, tem que ter muita paciência.  Outro dia vi um cara quase entrando debaixo de um caminhão, porque tava escrevendo mensagem de texto no celular.  Vê se pode!? Essa loucura toda, nesta chuva e o sujeito inventa de escrever mensagem no celular!?  Aí também não dá, né?"
*****
"...e essa molecada no semáforo?  É um descaso sem jeito, é um crime.  E os velhacos lá em cima cada vez mais gordos e mais ricos, só viajando de jatinho e comprando passagem de primeira classe pra familiada toda.  Esses malabaristas-mirim são um soco no estômago do brasileiro.  Sem contar que tem uns marmanjos que ficam fazendo disto uma indústria... Eu fico pensando se já não estão todos no crack.... Fazer o quê?  Rezar?!  Acho que nem isto adianta mais..."
*****
"...nesta época do ano a coisa fica um pouquinho melhor: muita gente de férias, a molecada fazendo festa no litoral, o movimento das empresas diminui.  Aí eu também aproveito para trabalhar um pouquinho menos, levar a patroa no cinema, que ela gosta de ver filme e ainda não assistiu aquele Tropa de Elite 2, você já viu?  É, também já me falaram muito bem, aquele cara é fera...(...)...  Mas depois chega o finalzinho de janeiro e a cidade desperta de novo.  Agora tem que torcer pra não ter enchente senão ferra tudo.  Uma vez fiquei 6 horas parado no mesmo lugar na Marginal, sem poder ir para frente ou para trás.  E o duro é que a gente acaba gostando disso aqui, entende?  Tem oportunidade de trabalho para todo mundo, os moleques tem estudo, quando dá a gente faz um bate-e-volta para a praia..."
*****
"...eu cheguei aqui aos treze anos, em 1973, lá se vão quantos anos? Pois é, faz as contas aí... e desde 78 aqui na boléia.  Férias só quinze dias por ano.  O resto é aqui, ó, atrás do volante. Já vi coisas que é até difícil de acreditar.  Acidentes, briga na rua, gente importante perdendo a classe por besteira... Essa cidade é uma loucura.  Eu quero logo é poder sair daqui.  Meu irmão tem um negócio no interior de Minas, de venda de tecidos, eu pretendo trabalhar até o final do ano que vem para juntar dinheiro e zarpar para lá...  Aí vou deixar isto aí tudo que você tá vendo para vocês cuidarem, hehehe!"
*****
"...eu gosto de trabalhar é de noite.  Você já viu como a cidade é bonita à noite?  É verdade!  A gente tá sempre apressado, mas São Paulo tem algumas coisas de deixar de boca aberta.  Eu gosto de andar ali perto do Pacaembu, e também andar na Paulista, ainda mais agora com esta iluminação nova, tem gente que se encoraja de andar até mais tarde.  Eu não tenho medo da noite.  Hoje qualquer hora é hora.  O negócio é ficar atento, mas também prestar atenção no lado belo da cidade..."
*****
"outro dia entrou um cara me pedindo para levar lá para a Zona Norte.  Eu fiquei meio desconfiado com a aparência do sujeito.  Ele mandou tocar, cheguei mais ou menos onde ele queria, e ele mandou continuar.  Meu coração já começou a dar aquela disparada... Vire ali, e depois à direita.  E não chegava o raio do destino.  Pensei comigo: Valei-me, Deus!  E fui, tentando aparentar naturalidade.  E andei mais um quinze minutos depois do que ele me pediu. Chegando no lugar de destino ele abriu a bolsa, tirou duas notas de 50 e ainda me deu uma de 20 de brinde. E disse: "Desculpe não ter falado o lugar exato, é que quando eu falo, ninguém quer me trazer..." Aí eu vi que não tem jeito mesmo, nós somos um bicho preconceituoso pácas"
*****
"Eu? Sou, sou do Norte, tô vindo do Pará.  Você me explica como chega em Congonhas?  Eu ainda não sei direito... É, é verdade, melhor comprar um GPS.  Mas o problema é que o GPS é cheio de falhas e se você ficar muito dependente dele, acaba não aprendendo a andar na cidade.  Não, eu vim sozinho, minha família só chega no final do ano, tenho um menino e uma menina e a minha senhora está grávida do terceiro.  Este táxi é do meu tio, ele trabalha de noite e me cedeu para eu trabalhar de manhã, só tenho que pagar metade do que o pessoal geralmente paga para alugar por semana, ele está quebrando um galho danado para mim, você nem imagina... É, vamos ver, eu tenho muita esperança de ser feliz aqui, dizem que é a terra das oportunidades, né?  É rezar, trabalhar e esperar..."
*****
"É isto mesmo: dia de jogo não tem o que reclamar - é cenhão a corrida e sem recibo, se quiser pode procurar outro táxi.  O quê? E eu, playboy, que fiquei mais de uma hora esperando aqui nesta fila enquanto a belezura tava lá dentro se divertindo?!"
*****
"São Paulo é o seguinte: é olho pra frente, no retrovisor, paciência, paciência e paciência.  Depois disso, mais paciência.  Eu, particularmente, gosto muito disso aqui.  Tem um certo desafio de você dominar a cidade, sabe como é que é?  Aí dá a impressão que você tem um poder diferente, sabe se desenrolar aqui no meio deste mundaréu.  É a maior cidade do hemisfério Sul, não é verdade?  E é a cidade mais brasileira que existe: mineiros, gaúchos, nordestinos, gente de tudo quanto é lado.  Até paulistano tem aqui, se você procurar bem.  Sem contar o meu time do coração, não é verdade?  Qual é?  O que você acha?  Claro, né?! Olha para a minha cara! Só podia ser!"
*****
Sei lá como fazer uma homenagem para Sampa, então botei este tanto de personagens meio reais, meio fictícios.  Acho que só assim mesmo para gostarmos desta cidade do jeito que ela realmente é: mais que real, mais que imaginária.  Incorreta, esperançosa, medrosa, acelerada, cosmopolita, indispensável.  Como seus taxistas.  Como os clientes que eles carregam.  Uma colcha de retalhos costurada com pressa, agulha grossa e uma só pitada de sensibilidade - que é preciso ter ainda mais sensibilidade para senti-la. Queria escrever mais, mas não dá, nunca dá. (E por que é que a gente sempre acha que amanhã vai ser diferente? Tá no céu cinza da cidade ou em nossos genes?) É sempre assim. Sampa me chama, tenho que ir correndo... 
"Táxi!!!"

6.1.11

Simples assim...

(Em ritmo de bolero...)
Quando ela queria só um pequeno gole de água, suco ou refrigerante, costumava pedir: “só um dediquinho”.
Quando ele contava uma história de um negócio que não vingou dizia que a proposta tinha sido enjeitada.
Quando não sabia o nome do conector que juntava a mangueira à torneira, ela o apelidava de “penduricalho”.
Quando alguém havia sido trapaceado, ele dizia que era um engodo. Quando queria fazer rir, dizia que o dia estava escalafobético. E ninguém sabia que diabo era aquele.
Inventavam e recuperavam palavras: desassossegado, endiabrado, faniquito, rebentar, lambisgóia, penduricalho, dediquinho. Traziam troços do passado com seus desejos do futuro.  Remendavam tudo com Araldite e Durepoxi. Não se importavam com a tal da estética, pois casavam, os dois, muito bem. A la Super-bonder.
Ela tinha dores nas juntas, ele tinha dores nas costas e pressão alta.  Ela tomava um comprimidinho para diabetes e ele também.  Ela estava sempre com um bule cheio d’água à primeira boca do fogão esmaltado, esperando a visita que certamente chegaria lá pelas três, tão pontual quanto as chuvas de Belém. Ele fica esperando um neto passar correndo para acertar uma bengalada e perder o fôlego de tanto rir. 
Ele fazia truques no baralho e ganhava todas as partidas, para, na sequência, por distração e muito rejubilar-se, perder tudo novamente.  Ela guardava um livro de receitas de sua avó na gaveta da mesa, e era inacreditável que uma avó pudesse ter tido avó. Ele gostava de música caipira, daquelas de raiz, e dizia: “Eita pêga!”. Ela gostava de bolero e música antiga, bem antiga, lá dos começos das marchinhas e do hino do Uberaba Futebol Clube.  Mas ninguém nunca conseguiu achar uma gravação com o tal do hino e acabou que ela teve que ouvir a música na sua vitrola íntima, na sua cachola. E tinha um pedaço que nunca conseguia se lembrar ao certo... 
Ela era muito religiosa e lia a Bíblia Sagrada todos os dias, especialmente os Salmos e Eclesiastes.  Ele gostava era do Apocalipse para aterrorizar os netos e bisnetos e dizia que era tudo besteira.  Mas sempre que um dos seus filhos ia embora, pegar a estrada de noite, por exemplo, o velho dizia: “Vai com Deus, meu filho”.  No que acreditava, se é que acreditava, ninguém nunca soube.  Parece que passou a vida sem se preocupar muito com isto, mas tinha um quê em seu olhar, quando mirava a jabuticabeira carregada, que era de agradecimento a algo que o transcendia.  Só nesta hora, é certo, mas já bastava. Era o lado quintessenciado de uma pessoa mundana.
Quando recebiam visita, era como o jornal da tarde, com as notícias frescas e distorcidas da cidade pequena.  Notícias de gente simples que um dia viraria lenda ou menos que isto. E era o que interessava saber: fulano brigou com ciclano, beltrano voltou de viagem e abriu uma loja de calçados, parece que vão asfaltar aquela rua que vai até a Vila Mineira, o filho de Mariana começou a andar e já tomou um baita tombo.  Tudo em primeira mão.  Até que chegasse um outro um pouco mais tarde e, no calor do bate-boca e do balanga-beiço, desmentisse tudo ou acrescentasse uma pitadinha de noz-moscada que mudaria todo o curso da história. 
Preparar o lanche da tarde para gente de todas as partes que vinham contar coisas sem muita utilidade era, nela, o lado terreno de uma alma desapegada.
Depois a casa seguia a sua vida (naquela época toda casa tinha uma vida própria, impressa em suas paredes, porta-retratos e quintais): lá pelas seis era hora de botar todo mundo no banho e preparar o jantar.  Depois o jornal e a novela.  Reza para quem era de reza.  O velho fazia pipoca em dia de futebol.  
Dormiam e roncavam e se beliscavam durante a noite: vira prá lá, você tá roubando minha coberta, busca água para mim? Já está na hora de acordar? Ele ria e ficava vermelho e a cara cheia de veias e de rugas, uma paisagem lunar. Ela ria e escondia a boca e terminava quase sem ar: ai, ai...
As suas brincadeiras com palavras eram frutos de cinquenta anos na cozinha, e, por parte dele, quarenta anos no armazém de secos e molhados. E tempo lendo as pessoas e não os livros.  Nos livros as falas são mais certinhas que na vida real.  Eles se esbaldavam era com este lado desabonitado, escancarado das conversas do dia-a-dia.  Não usavam palavras de efeito mas comunicavam tudo: ela ao esconder o doce de leite para que ele conseguisse controlar o açúcar no sangue e ele ao encontrar o esconderijo e esbaldar-se, enquanto ela puxava uma palha após o almoço, para aliviar o peso nas varizes. 
Ela ao desrosquear a tampa da garrafa de café e servi-lo, ele ao namorar a carga vindoura de jabuticabas. 
Por incrível que pareça, não dançavam e nem sabiam como. Que tudo tem seus defeitos, não é mesmo? Mas, como para tudo dá-se um jeito, aqui vai um remendo com Araldite e Durepóxi, como o velho gostava de fazer, em ritmo de bolero:
Ela e ele, ele, ela, ela ele, eleela: eles.

Dias de Fragilidade

Eu vejo um roteiro onde um sujeito cresce na marginalidade. Preso, privado, negligenciado, esquecido, endurecido, molestado.  Torna-se duro, distante, violento, emparedado, árido e ganha respeito.  Especializa-se em  fazer tudo de mal que lhe fizeram.  Esquece como é que se faz para chorar e aprende a arrancar lágrimas de suas vítimas.  Sem nenhum ponto de inflexão, um caminhar lento e retilíneo rumo ao abismo.  Segurando ao colo o seu sobrinho de alguns meses, é de se questionar: será, este pequeno, mais um?  Qual a diferença entre ser um número e ser uma pessoa?
*****
Eu vejo uma história de muitas histórias em uma grande cidade, e de amores quase impossíveis e paisagens humanas que eu nunca imaginei que um dia pudessem acontecer.  Uma rede de inter-relações criadas pelo acaso dos gnomos que escondem umas pessoas das outras, que atrasam a abertura dos sinais verdes em um décimo de segundo e um cupido com a pontaria despreocupada e destreinada.  Um escritor, uma prostituta, um casal de velhos, uma sonhadora.  E se estivéssemos na feira onde o pintor encontra a sua musa?  E se pudéssemos andar, à toa, em uma grande cidade, esperando o efeito dos gnomos, cupidos e do acaso brincarem com a nossa agenda?  Por um dia apenas, não à rotina besta das horas e do desespero com o calendário.  Por um dia apenas.  E neste dia de preguiça e imprevisibilidade supremas, apenas observar o movimento da rua... E poder peguntar: Onde é que isto tudo vai dar?
*****
Eu vejo um músico primoroso em seus passos de dançarino. Seus movimentos mínimos, calculadíssimos e a piração de seus fãs.  Um treinamento rumo à perfeição.  Mas, e é aí que reside a grande merda, não somos - nem teria como ser - perfeitos.  E aí fica faltando um tanto e fica sobrando outro tanto.  E a conta não fecha.  E no meio disto tudo, vem um regurgitar de artificialidade e de arrogância.  Mas depois vem a música e a dança e, de novo, sob seu efeito estupefaciante, somos levados a mergulhar na beleza, força motriz dos lunáticos e crédulos.  Eles precisam de esperança, nos adverte o compositor.  E é isso que quer nos dar ou vender.  Daí que é preciso tamanha pirotecnia.  Antes era mais simples?  Sei não... Depois será mais fácil?  Desconfio.   Puríssima chuva de fogos de artifícios, micro-momento de supremo êxtase, fumaça fugaz sobre o café expresso, um lance do olhar e o arremessar do chapéu do bailarino: só o agora existe?
*****
Eu vejo uma mulher em seus dias de fragilidade contorcer-se e enrodilhar-se como faz um gato maroto. E acompanhar um tanto de cenas de sonhos, de traillers de cinema, de projetos.    E desconfiar e acreditar. E tecer juízos sobre as coisas do dia-a-dia. E ter medo, e se assustar.  E depois, escândalo que é o mundo, rir-se a quase perder o fôlego ao ver um sujeito cair de uma cadeira que se parte em dois. E de pensar em como serão os próximos tempos - que o tempo, hoje em dia, tem corrido ainda mais rápido que antigamente.   Ela é suas sensações e isto é mais importante que a realidade, ainda que os fatos provem o contrário. Os fatos, ninguém, o escambau, podem provar o que vai dentro dela. À mercê dos novos tempos, como se todo tempo pudesse ser mais que a mesmíssima coisa de sempre - renovação. Olha o próximo calendário como quem espera o escurecer da sala do cinema e sente o sangue fervilhar nas artérias ante o imprevisível.  Lança sua sutilíssima flecha:  E você, o que vê? Seu veneno é tênue porém contínuo e é impossível não adormecer. E acordar só bem mais adiante, muito distante, naquilo que a poeira a bailar - luminosa sob o regaço da chamas da manhã - tenta convencer ser, finalmente, um novo dia. Ou mais um dia de fragilidade.