26.3.10

O Falso Profeta Contemporâneo.

Eis que um servo, ébrio de vinho e de ervas, recebeu uma nova edição, atualizada e sem vírus, do que ficou conhecido como código de conduta do mundo moderno. A princípio muitos o desacreditaram, e ele jamais foi reencontrado.  O que só fez aumentar a crença e a descrença de uns e de outros.

Os Mandamentos antigos continuariam valendo, alertara o cego, ébrio ou viajante, tantas foram as versões que dele nos trouxeram as narrações desencontradas. 


Mas era premente  mais mandamentos, pois as pessoas daquele tempo eram carentes de quaisquer balizas, ou, por outro lado, com ditames demais a serem cumpridos e sem saber em quais acreditar...  


Sempre e invariavelmente: sedentas.

A fúria geral das forças estabelecidas foi, como previsto, massacrante. Esconjurado, excomungado e ameaçado por tantas igrejas, ninguém mais viu o que passou a ser chamado de falso-profeta contemporâneo.  


O texto, por sua vez, em função de tamanho alarde, chamou a atenção do jornalismo independente que jogou-o na internet, amarrado em vírus encapsulados poli-resistentes. Eu mesmo não sei como veio parar aqui...  Mas quem é que consegue tirar? 

Os sisudos resmungavam: "Não há mais como incendiar Alexandria..."

*****


“Então falou o ébrio todas estas palavras, dizendo: Eu não sou o Senhor teu Deus, logo, se decidires seguir o que aqui te digo, fa-lo-á por tua própria conta e risco.  Caso contrário, suportarás as conseqüências aqui ou na terra do Egito, pois - felizmente ou não - súbito, está tudo entrelaçado... 


1. A não ser em caso de extrema urgência, não terás outros deuses diante de mim. Caso te desesperares, poderás me procurar em qualquer outra forma de manifestação que te soar mais compreensível.  Respeitarás o teu próximo, ainda que ele tenha outros deuses, religiões ou seitas. E mesmo que usem daime, marijuana ou cogumelos em seus sacramentos e rituais.  Não te esquecerás que todos os deuses são manifestações da Minha Divindade que a tudo perpassa. Lembrarás que o vinho também é um bálsamo que tens usado frequentemente em teus encontros comigo.  Tolerarás a diferença e, quiçá, um dia, passarás a celebrá-la.





2. Não adorarás imagens, sejam da Madonna, dos Beatles, do gagaísmo ou de qualquer outro ismo.  Mas estarás eternamente perdoado por sentir-te internamente alvoroçado e enternecido por estas tentações.  Criei a beleza para que não te esqueças jamais de tua origem divina e para que nela possa te comprazer em meio a tanto sofrimento e falta de significado dos ralos dias que ainda te restam.



3. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão. Mas não te esquecerás que, nestes tempos, nunca será em vão andares com o nome do Senhor teu Deus ao alcance de tua língua seca e cansada. Não precisarás mais chamares o nome Dele, Ele estará onde estiveres e tua confiança ou desconfiança na presença dEle, idem.

4. Santificarás todos os dias, que um só por semana é pouco demais em meio a tanto frenesi.  Farás do teu trabalho e do teu descanso o ato mesmo de louvor.

5. Honrarás a todos os pais e a todas as mães, tios, avós e filhos e sobrinhos, vizinhos, amigos e colegas. Inimigos ainda mais. E não só aos teus.  E para que não te esqueças, honrar não é só saldar dívidas, é enobrecer e prestar veneração.

6. Não matarás...  especialmente o teu sagrado e raquítico tempo fazendo coisas que tu sabes detestar e que não consegues dizer não.  Não!!!


7. Não cometerás adultério.  Mas buscarás, enquanto viveres, o amor carnal e de alma e por ele serás, em retribuição, perseguido. E não te trairás com a mulher que não ama ou com o homem que te enoja, mesmo que com ele/ela sejas casado, ajuntado, amasiado ou qualquer outra coisa sem nome atrás da qual tentaste, em vão, te acobertar.  Também não adulterarás combustível, documentos on-line, balancetes de empresas e senhas de internet.

8. Não furtarás.  A não ser pequenas frutas dos pomares, quando estiveres completamente a sós com tua fome e inquietação, pois aí, então, será em nome da obra que Eu, o grande lavrador do universo, criei.  Lembrar-te-ás, neste ímpeto corrosivo e instantâneo, que foi para ti que Eu criei todos os pomares e, portanto, os frutos são teus.  Contudo, não confundirás frutos e furtos.  Não usarás bandeiras para invadir terras alheias e produtivas.

9. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.  Tampouco contra aquele que está distante e pouca chance terá de defesa. Especialmente a principal e imperdoável forma de falso testemunho de teus dias: a bajulação. Mas aprenderás a usar da mentira como meu filho Dostoiéviski: temperando a realidade. A verdade mesma, esta jamais compreenderás e ninguém te acreditarás quando almejares - pretensiosamente - proferí-la.

10. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem seu i30, nem seu iPhone, nem coisa alguma do teu próximo.  E mais: cobiçarás o pouco ou muito que - imaginares - já possuir. 

E, de lambuja, não te esqueças: Manter-te-ás conectado.  Sempre!

"Ahaha! Quero ver tu cumprires! Aha!".  Gargalhara, em sua única aparição, o falso profeta, enquanto se dissolvia em meio à multidão...

19.3.10

Pela leveza...

O caminhar da moça era leve. O do rapaz era firme, mas também tinha algo que fluía bem.  Há leveza no caminhar e no modo de falar.   Mas é preciso estar atento, ou - levemente - atento.

Há leveza no samba e até no hard rock, apesar de tanto valor que se dá ao peso dos tambores e das guitarras envenenadas por amplificadores valvulados.

A leveza é uma das características humanas que nos aproximaria do que poderíamos ser, não fossemos tão sofridos, tão radicais, tão tantas outras coisas.

Leveza não é inconsistência nem superficialidade.  Ainda que estas duas nos sejam empurradas como genéricos de modo encoberto tão amiúde.  Não a leveza dos livros de auto-ajuda, mas a que você aprendeu com sua tia-avó.  Pois cada família tem sua leveza: um bolinho de chuva como ninguém mais no mundo faz.

É a leveza do pombo, como dizia Italo Calvino, e não a da pluma, a de que tanto precisamos.  Leveza no modo de comunicar boas e más notícias.  Para ser leve é preciso estar próximo.  Mas a leveza também age apesar da distância.  A leveza de escrever seis propostas para o próximo milênio e ter uma obra consistente mesmo morrendo antes de completá-la.  

A leveza age através do tempo. Por isto é importante deixarmos rastros no caminho, para lembrar-nos de sermos, no futuro, novamente leves. Assim, a leveza nos será o antídoto de tantas auto-sabotagens.

O mesmo fio de leveza que levou Paul McCartney a compor tanto Blackbird quanto Helter Skelter.  Não é só ser sublime, é preciso ter energia, pegada, assinatura e personalidade.  É preciso ter voz para ser leve.  Mesmo para quem é mudo.  

Ser leve não é ter dó ou compadecer-se.  Ainda que não haja leveza sem compaixão.  Não é somente ser generoso ou gentil.  Não é mera educação ou polidez.  Ainda que estes ingredientes possam compor a massa, sem a temperatura humana adequada e sem o fermento dos anos, não haverá leveza.  

Ainda que mormente equânime, há sopetões e crises de abstinência de leveza ainda não codificadas nos manuais de classificação de doenças... A leveza é algo além do que vai no dicionário e além do que se possa sugerir.  Ela vai nas suas lembranças de momentos de leveza. 

Não é a leveza dos paraísos artificiais a que proponho, mas a das pequenas coisas. Não a dos transes ou das transas, mas a das tranças do cabelo da fotógrafa. Do conforto de um prato com bastante azeite de oliva. A leveza da fumaça do chá de hortelã.  E a do primeiro sorriso de quando se encontra um amigo de longa data após um intervalo ilógico de desencontros. 

A leveza de um pedido de desculpas oportuno, ou a que flui a partir daí.  Ou a leveza de uma criança correndo e imitando um cavalo, que só tem graça para quem já viu a cena. Ou a de rever "Casablanca", "Cinema Paradiso" ou "Amelie Poulain".  A leveza que você sonhar ou inventar.

Não é a de uma cantada barata em meio a duas ou três doses de uísque, não é o descompromisso.  Ainda que a leveza possa incluir duas ou três doses de bom uísque e momentos revigorantes de pés descalços desperdiçando horas sem culpa.

Sim à leveza de acordar mais cedo um pouco e abrir a janela ao invés de acender a luz.  E de falar bom dia ao português da padaria, ao estilo Zeca Baleiro...  

A leveza da voz potente e impactante de Elis Regina cantando "Ponta de Areia", ainda que nos doa no fundo de tudo o que somos. Precisamos de leveza ainda que nos choque: vale tudo para quebrar o lacre forte de indiferença e impermeabilidade com que nos deixamos envolver, obstinada raça humana que somos. 

Precisamos de leveza, mas não como um deserto precisa de chuva, já que o deserto continuará sendo sempre deserto, idem para a chuva.  (E a leveza pode até nos transformar...). 

Precisamos de leveza como um pedestre busca a sua faixa para atravessar para o outro lado.  Leveza é segurança, procedimento, paciência e fluidez. Precisamos racional - e não radicalmente - de leveza.  Pois já seria um contra-senso uma busca estabanada por algo que só encontramos distraidamente.

Carecemos mesmo é da leveza da sexta-feira transplantada para a segunda.  E de uma foto de criança na área de trabalho do computador.  A leveza de uma carta de amor num filme de guerra, não de uma guerra de nervos num romance. 

A leveza de não reprimir um ato de generosidade, ainda que não vá fazer diferença no longo prazo.  No longuíssimo prazo mesmo, nada fará diferença e a leveza nos terá guardado em seu repertório de lembranças. Até lá nos transformaremos num porta-alfinetes ou numa partitura amarelecida de J. S. Bach: a leveza é para agora e não para quando estivermos preparados.

Com leveza se prepara um prato bem temperado e se dá um beijo de boa noite ou de bom dia.  Com leveza se segura na garganta uma fala ofensiva e desnecessária... e se dispensam outras palavras gastas das declarações mútuas de afeto.  Sermos leves será a nossa vindoura declaração de afeto.



12.3.10

Como viver sem Dona Marta?




"Entraram na casa do cartunista Glauco.  Ele que entra em nossa casa todas as manhãs, com seus personagens diabólicos, maravilhosos, estabanados, mal acabados, perfeitos.  Por sorte, o filho, que chegava da facu, conseguiu perceber a movimentação e chamou a polícia a tempo.  Um dos canalhas foi atingido por uma bala no abdome e morreu a caminho do hospital. O outro foi pego enquanto tentava fugir da polícia.  Armaram um bloqueio policial próximo à divisa de Osasco e Sampa.  Por sorte, Glauco e sua família saíram ilesos..."

Acordo na manhã de sexta e ligo a TV.  Dá azar acordar e ligar a TV, ainda mais numa sexta, dia 12. "O cartunista Glauco e seu filho foram assassinados na noite de hoje, por volta da meia-noite...".  Como assim? Isso é notícia que se dê para alguém logo pela manhã?  Foi um chute no estômago.  Putz, e agora?  (Aliás, putz se escreve com "s" ou com "z"?).  Como viver sem a Dona Marta, Grinfa, Doy Jorge, Faquinha, Geraldão?!?

Decido não abrir o jornal.  Não sei se deu tempo de os outros cartunistas saberem da notícia.  Não sei se haverá uma tirinha do Glauco no jornal de hoje.  Não quero saber. O Brasil acorda mais sem graça. Ou, como notou bem um seu amigo cartunista, bem mais "xarope".

O advogado da família fala na TV que ainda não tem nenhuma pista dos assassinos.  Voz embargada, um arremedo de voz.  Mais que uma relação profissional: não havia como não ser amigo daquele cara tão imperfeito, boa praça, humano e encantador.  

A autópsia, por certo, não revelará a verdadeira causa mortis: vivemos, todos, num balão de pouco oxigênio, muita insegurança e impunidade, onde as baixas são os avatares cujo grito ecoa tímido sem ninguém por perto para ouvir. Glauco morreu para proteger sua família, mais importante que seus personagens. Seu filho morreu na tentativa de salvar o pai: que nele também circulava o mesmo sangue nobre.

Jandaia do Sul, Paraná, na antevéspera do surgimento dos Beatles, nasce, caipira, Glauco Villas Boas, em 1957.  "Meu traço não é bom para retratar o futuro. Corro o risco de não falar a língua da moçada." Glauco também falava asnices, como se vê pela frase acima. Um remédio certeiro para tanta cabecismo e discursos vazios do meio cultural brasileiro.

Querida Dona Martha, você que sempre denunciou a chatice dos escritórios, da vida sem vida de muitas relações profissionais das repartições públicas e privadas, que sempre pregou sustos nos seus companheiros, mostrando os peitos enormes e cheios de amor para dar, me diga:  como é que continuaremos agora?  Você, estabanada, inconsequente, feia, inconveniente, sincera, mulher prá mais de um exército, me responda: como será o dia de amanhã?

Faquinha, do alto do morro, onde tudo vê, de onde se empanturra de cola de sapateiro e voa para a estratosfera em busca de um mundo menos pesado que sua realidade.  Você que denuncia nosso descaso com os desvalidos, com os moradores de rua, com as crianças em situação de altíssimo risco, a violência e corrupção de alguns maus policiais.  Você que está sempre à espreita do pior, tentando se abrir para uma cópia pirata de dias melhores: Como é que prosseguiremos?  

Geraldão, maluco beleza, diz aí meu véio: cadê seu mano Doy Jorge?  Cadê o Grinfa? Mas como vocês todos nos pedem para não endurecer? 

Não dá para fechar a história...  Hoje viveremos com menos leveza e com mais medo.  De nada vai valer o apelo quintessenciado dos seus personagens em nossa memória.   Nós, leitores, por sorte, tivemos a experiência de conviver com alguns de seus personagens viajantes, delatores da mediocridade e da hipocrisia, contrapontos da sem graceza do moralismo. Mas hoje, Glauco, que você não veio, todos temos o direito de chorar. 

Querido Glauco: não sou cartunista, não sei desenhar.  Mas imagino uma sequência curta de quadrinhos, onde seu filho Raoni Villas Boas te abraça no dia da formatura dele. Nas fileiras de trás, todos nós brasileiros. Mais adiante, seus amigos de tanto tempo de trabalho, desde 77, na Folha. Artistas, cartunistas, escritores, editores, gente comum, sua família. Na primeira fileira: os personagens da TV Pirata, da TV Colosso, Geraldão, Faquinha, Grinfa, Geraldinho, Carreira, Los três amigos, Zé do Apocalipse, Casal Neuras, Doy Jorge e Dona Marta:  "Bravo!!!  Bravo!!!"

11.3.10

Três acordes para a gentileza.


Para Danny Vincent
Argentino radicado na noite paulistana
(Melhor guitarrista do cenário blues brasileiro)


Folheio o jornal Clarín em busca da repercussão do prêmio de melhor filme estrangeiro para o sutilíssimo e arrebatador "El Secreto de Sus Ojos", de Juan José Campanella (2009).  Acabo me deparando com algumas outras poderosas notícias que nada tem a ver com o tema, a não ser por tecer uma invisível rede de gentileza; um blues lento tocado em um botequim à meia-luz.

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Primeiro acorde: (Dó maior com sétima e nona):

Entre as notícias mais lidas da semana consta o trabalho do astronauta fotógrafo japonês Soichi Noguchi que, em missão espacial, com acesso à internet, posta várias das belíssimas imagens em seu TwitPic, um espaço virtual para compartilhamento de fotografias. 

O mundo reinventado em seu olhar que brinca conosco que, cá embaixo, torcemos por novos vislumbres e impressões do mundo.  "Adivinhe que cidade é esta?", "Tóquio à noite", "Vênus ao pôr do Sol", "São Paulo, a maior cidade do hemisfério Sul", "Vulcões no Saara", "Glaciares argentinos", "Lua cheia, para pano de fundo do seu desktop".  

O mundo todo é contemplado pela generosidade de suas lentes, orbitando a 400 km de altitude.  Visto de cima, sem fronteiras, não é difícil concluir: participamos de um cenário de raríssima beleza. O astronauta nos escreve, gentilmente, em um inglês folgazão e é interpelado por comentários em praticamente todos os idiomas.

(Muito diferente do astronauta brasileiro que gastou uma nota preta para dar seu passeio egoísta e ficar com as imagens bem presas às suas exclusivas e excludentes retinas.)

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Segundo acorde: (Fá com sétima e décima terceira).

La pediatra de los chicos criados por una travesti destaca que "es una madraza". 

Isto mesmo, com esmagadores 82 por cento de aprovação, os leitores argentinos aplaudiram a decisão judicial de que dois irmãos fossem adotados por uma travesti, María Belén Ochoa.  Segundo a pediatra responsável pelas crianças, Matilde Glineur Berne, os hermanitos estão mais saudáveis e felizes e a travesti é um exemplo de mãe.  E por quê não?

"El juez vio la persona que ella tiene adentro, no su condición sexual".  É verdade, a foto dela no jornal mostra um ser humano que não é ou homem ou mulher, mas algo além destas divisões, como aponta seu olhar tangencial. María Belén resgatou aquelas crianças, cuidou, ofereceu seu carinho, tempo e gentileza.  Sem qualquer um dos ingredientes acima, a receita de humanização certamente resultaria insossa. 

(E a gente aqui, no trópico de Capricórnio, tropeçando para emplacar a lei contra a homofobia...)

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Terceiro acorde:  (Sol com sétima e quinta aumentada).

No filme "O segredo de seus olhos", o único olhar poderoso a perdurar após o crivo do tempo e do sofrimento, em mais de duas décadas de história, não é o olhar que dá nome ao filme.  É o trocado entre os atores principais, Ricardo Darín e Solledad Villamil.   

Ricardo Darín (o mesmo de "O Filho da Noiva" e "XXY") é o Marcello Mastroianni de nossos tempos.  Sua habilidade cênica e a amplitude de seu olhar, em especial neste filme em que contracena com a bela Solledad, cria um clima de enternecimento que vale a pena a espera dos vinte e cinco anos: um esplêndido campo magnético! (Ainda que nosso olhar não acompanhe o desfecho, espremido atrás da porta).

O mais belo, ainda, foi o fato de oferecerem, durante a cerimônia em que conquistaram o segundo Oscar argentino, a estatueta aos hermanos chilenos. Gentileza gera gentileza.

Temos muito a aprender... Com o astronauta, com os hermanitos e com a madraza travesti. E não, não podemos dispensar um grão sequer de gentileza.  

(Fecha em Dó com Sétima Maior)

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Links para os "três acordes":

1. http://twitpic.com/photos/Astro_Soichi

2. http://www.clarin.com/diario/2010/03/10/um/m-02156280.htm

3. http://www.clarin.com/diario/2010/03/08/espectaculos/c-02154778.htm

9.3.10

O Diário de Júlia P. Ventura.

Sei que vai parecer estranho e, por muitos anos, hesitei em contar esta história.  Mas como não me saísse da cabeça, pensei que escrevê-la fosse um modo de curar o mal, como dizem os romancistas.  Para que não a tomem por invenção, já vou antecipar que o melhor lugar do que aqui vai é entre o real e o imaginário, pois eu mesmo não sei o quanto do que pude resgatar é verdadeiro e tenho confiado cada vez menos na memória.

Estava em um ponto de táxi e ia lendo um livro de Kafka, se não me engano, A Metamorfose.  Era o raiar do dia e, no ponto ao lado, algumas pessoas esperavam o ônibus, entre elas um senhor com uma bengala, um casal de adolescentes e uma mulher de seus 25 a 30 anos, com jeito de estudante universitária.  Ela foi a última a entrar no ônibus e, enquanto subia os degraus, deixou cair um caderno de anotações.  Ela não percebeu a perda e quando consegui resgatá-lo, o ônibus já ia ao longe. Meus acenos de nada adiantaram.  

A única solução era a de folhear as páginas iniciais do diário em busca de algum dado de contato, o que fiz a contragosto. Lá constava: Julia P. Ventura e seu número de telefone.  Estranhamente, não havia endereço.  No final daquela manhã, consegui entrar em contato com Júlia P. Ventura que me atendeu com um certo ar de previsibilidade e de forma nada agradecida: "Ah, foi você que encontrou meu diário?", "Sim, eu gostaria de saber como posso devolvê-lo, se você...",  "É melhor que você fique com ele, não quero mais saber desta história".  Depois de algum tempo, me conformei a ficar com o diário, sob a promessa de não ler seu conteúdo ou comentar com ninguém antes de passados dez anos.  Como achei tudo aquilo uma grande idiotice, acabei concordando e joguei o diário no fundo da minha maleta.  Pedi para que anotasse meu telefone e e-mail, caso mudasse de idéia. A voz dela me passou um tom de passionalidade e, paradoxalmente, opacidade que, por muito tempo, não pude compreender.

O dia era cheio de compromissos e, ao chegar em casa, acabei me deparando com uma festa surpresa para uma das crianças.  O assunto se perdeu, a maleta foi esvaziada e o livro foi para uma mala velha onde costumava despejar livros que um dia, quem sabe, poderiam me atrair para sua viagem. 

Muitos anos adiante, o carro na oficina, vi-me obrigado a pegar um táxi no mesmo ponto e a história me veio à tona.  Marquei na minha agenda: "Lembrar do diário...".  Sete anos haviam se passado.  Preparei um chá de hortelã, acendi um cigarro e estiquei-me na poltrona da escritório.  Nas primeiras vinte ou trinta páginas, não havia nada de muito interessante ou repugnante, a não ser um bocado de poeira e mofo. Então, Julia P. Ventura conhece um tal de Carlos A. Penia.  Era o mês de março.

Julia P. Ventura era estudante de pós-graduação em relações internacionais de uma universidade pública e planejava prestar um concurso para a diplomacia.  Via-se, pelas suas memórias, que era versada em algumas línguas e uma figura correta, retilínea, objetiva.  O tal Carlos A. Penia era um sujeito esquisito, ímpar e especial, pelo que ia sendo descrito:  "Hoje ele me mandou um convite para um teatro na Praça Roosevelt e o convite veio acompanhado de uma begônia.  E eu lá sei cuidar de begônias?  Onde é que eu vou colocar isto em meu apartamento? Mas ele é interessante, uma lagarta listrada..."  Ela não gostou do teatro, que era uma peça baseada em Marques de Sade, mas mostrava-se tentada, pela peça e pelo rapaz.   Ele era misterioso e esotérico, o que criava uma tensão incrível com o pragmatismo e a falta de fé dela.  

No dia 27 de julho, há uma anotação cuja letra destoa muito dos dias anteriores, ainda que, provavelmente fosse de Julia P. Ventura.  Era um dia de sábado e concluí que ela pudesse ter bebido.  Escrevia em códigos, provavelmente para escrever algo do qual só ela pudesse entender depois.  "Limão na casa dois: cheflera". 

Quase desisti de ler até que lá pelo mês de setembro, algo espantoso foi revelado: "Hoje, descobri que Carlos A. Penia está completamente  obcecado por esta história de previsão do futuro e consultou uma cartomante para 'confirmar' o que o site disse. Estamos pensando em romper...".  Mais adiante, pude perceber que o tal site era um programa ultra-elaborado, feito experimentalmente na Universidade de Pittsburgh e que permitia, com uma dada margem de erro, proporcional à veracidade e complexidade das informações fornecidas, calcular a data mais possível da morte de uma pessoa.  

No começo, divertiram-se muito com a idéia e começaram a colocar dados de vários de seus desafetos, aumentando os fatores de risco.  Por exemplo, com a chefe de Carlos A. Penia, fizeram um cálculo como se ela fumasse cinco maços de cigarro por dia, fosse paraquedista e tivesse duas pontes de safena. Aumentaram sua idade para 85 anos.  O site retornou uma expectativa de vida de três meses. Entre o mórbido e o jocoso, iam se rindo e enamorando.  Amalgamados.  

Mas então, chegou um dia em que Carlos A. Penia decidiu revelar-se a Júlia P. Ventura e declarar-se totalmente apaixonado.  Decidiu que deveriam se casar. Outro dia de letras incompreensíveis.  Resolveram, em outubro, que fariam o teste de Pittsburgh com todos os seus dados, como um pacto de sangue moderno e sem cortes, o que requeria que ficassem sócios do programa, algo em torno de 150 dólares.  Fizeram as contas e decidiram que valeria a diversão.  

No dia seguinte, receberam uma confirmação de pagamento e foram convidados a preencher todos os dados, o que levou mais de três horas para cada um.  Muitas perguntas estranhas como: "Com que freqüência você vai a estádios de futebol?", "Qual a sua cor preferida?", "Qual é sua estação preferida?".  Hábitos de saúde, atividade física, superstições, manias, tudo foi levado em conta.  O quanto acreditavam naquela previsão, em uma escala de zero a dez... Julia P. Ventura ia traduzindo as frases mais complexas. Precisaram fazer algumas ligações para parentes antigos para confirmar alguns dados da árvore genealógica. Clicaram no botão "Enviar". 

A resposta chegaria no dia seguinte, mas houve um dia de atraso, escreveu uma Julia P. Ventura, também transtornada.  

Eu, a esta altura, estava comendo cada página do Diário.  Já havia fumado mais de uma carteira de cigarros e o escritório estava carregado.  Senti-me sem fôlego, mas já não tinha outra escolha senão prosseguir, espremido entre a vergonha e o voyerismo.  Buscava sinais mínimos que pudessem contradizer a história, colocava cada página contra a lâmpada forte da luminária em busca de vestígios, manchas, impressões digitais...

A resposta chegou no dia 03 de outubro, quatro dias após o envio.  "Caro cliente, leve em consideração que este é um programa experimental e que as previsões aqui elaboradas foram baseadas em modelos estatísticos e apenas representam uma probabilidade". Clicaram no botão "Concordar".  Julia P. Ventura: "Sua data prevista de morte é daqui há 67 anos, 9 meses e 8 dias, no dia tal de tal de dois mil e tal". Ela deu saltos de alegria e comemoraram.  Mãos frias e suadas.  Abriram o outro e-mail: "Caro cliente...".  Parece que Carlos A. Penia já previa a resposta:  "Sua data prevista de morte é daqui há 6 semanas e 2 dias, no dia tal de tal de dois mil e tal".   Carlos A. Penia estava lívido, suando frio e começou a sentir-se nauseado, como uma profecia que se auto-concretizasse. Julia P. Ventura tentou animá-lo e desacreditar o programa.  "Mas eles são da Universidade de Pittsburgh! Como é que pode estar errado?!"

Procuraram um médico na manhã do dia seguinte.  Carlos A. Penia quase não ouvia nada do que o médico lhe dizia, e como se comportasse como um zumbi, Julia P. Ventura foi quem mais falou.  Os resultados dos exames ficariam prontos em três dias.  Naquela noite mesma, Carlos A. Penia decidiu que se envenenaria.  Julia P. Ventura achou que fosse brincadeira, até perceber, destroçada, que era verdade.  Ele exigia que ela guardasse segredo e ameaçou roubar-lhe o diário.  Daí em diante, as anotações começaram a ser mais escassas e telegráficas. 

Do lado de cá do Diário, já não havia mais luzes acesas na cidade e só um resto frio de chá me fazia companhia.  Desfiz-me dele e decidi engolir o resto da história. Sem chá e sem cigarro.

Carlos A. Penia não quis buscar os exames e decidiu que, já tinha que morrer, o faria por si mesmo, sem apoio de médicos, de santos ou de bálsamos.  Não jogaria a derradeira partida de xadrez, ao menos deste lado.  A única coisa que o ligava a este mundo, após aquela notícia, era o amor de Julia P. Ventura, já que o seu, de intenso, descarado e iluminado, tornou-se frio, quintessenciado e desgarrado.  Uma impressão digital perdida naquele longo diário. O seu desejo era o de que Julia P. Ventura o ajudasse em sua última missão nesta jornada rasteira que lhe parecia a vida naqueles dias.  A escrita passou a ser mais poética e sofrida daí em diante. 

No dia 15 de novembro, feriado nacional, Julia P. Ventura escreve: "não tive escolha, talvez tenha sido melhor para nós e melhor para ele.  Assunto encerrado".  Não havia nenhuma outra anotação a não ser em  treze de dezembro do mesmo ano: "Daqui há dez anos, ninguém vai mais lembrar disso.  Sou jovem e tenho a vida pela frente. Vou me concentrar nos estudos e abandonar esta história em um canto qualquer.  Não passo um minuto sequer sem pensar nele. Onde estará agora?".  

Atônito, decido entrar em contato com Julia P. Ventura.  Mas ela havia me pedido segredo por dez anos!  Como eu poderia me reapresentar a ela?  Eu era apenas um desconhecido e curioso!  Arduamente, decidi esperar. No dia em que se findou o prazo de dez anos, consegui o telefone novo dela em um site de buscas.  Atendeu um senhor e tive que ser lacônico:  "É um assunto de interesse dela...", "Pois vai ter que ficar para mais tarde, ela está desaparecida há duas semanas..."

Resolvi deixar o assunto para lá. Esta história estava demasiadamente arriscada.  Eu tinha família, filhos e já faltavam apenas cinco anos para minha aposentadoria.  Até que recebo uma mensagem em minha caixa de correio:  

"Visite nosso site e conheça seu futuro.  Programa sério e desenvolvido pela Universidade de Pittsburgh.  Respeitamos a política Anti-Spam, seu nome foi-nos indicado pela cliente Julia P. Ventura.  Caso não queira mais receber nossas mensagens, clique neste link.  Caso deseje conhecer nosso método, leia nosso Termo de Consentimento e clique neste link".

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6.3.10

Foto amarela.

As gotas caem vertiginosamente.  Sem pára-quedas.  Apenas um abrir em flor ao tocar o solo.  Asfalto, terra, grama, pele, mar: o que as esperará?  Sem notar que são acompanhadas por tantas outras gotas em sua viagem vertical.  O destino humano em miniatura: solitários viajantes em seu imprevisível curso. Um filósofo niilista diria curso rumo ao chão, um epicurista apreciaria a queda e aproveitaria para, das alturas, observar a paisagem.

Enquanto isto, em sua varanda, Pedro aproveita a disciplina dos sons da chuva para ler.  Em sua rede, recebe e faz algumas ligações e deixa de atender a outras.  Um dia comum em Minas Gerais, pensa, mas que dia bom...  Espera um parente para uma festa à noite.  Já são quase duas da tarde de um dia vagaroso.  A música de fundo quase não dá para se reconhecer, parece um jazz dos anos 40. Vassourinhas na bateria por um longo tempo. E um pouco de sono. Naquele dia, Pedro decidiu voluntariamente perder o almoço e comeu algumas das coisas que tinha na geladeira, e que não fechavam a conta para preparo de prato algum. Ator de teatro, Pedro tinha crises de identidade e financeiras em uma cidade que admira a cultura mas que não honra pagar os artistas apropriadamente.  Naquele sábado, o cair constante da chuva conseguiu levar consigo todas as personas do ator.  Ali, sem máscaras, sem esperanças ou angústias, Pedro chegou à beira da sacada de seu apartamento alugado e lançou um olhar longo para a rua, onde um mendigo bêbado andava de modo desnorteado.

Seu Zé.  Nome de nascença Jaime.  Hoje se apresenta como Seu Zé, tamanha a repetição deste bordão. Há quinze anos na rua.  Sua história só pode ser contada de forma concatenada por um narrador externo ou onisciente, daí que seja sempre tão irreal e tão comum.  Perdeu a esposa e os dois filhos, que deixou no estado do Mato Grosso.  De lá para cá, traições dos dois lados entornaram no chão o caldo dos sonhos de conseguirem se mudar para a capital mineira.  Perdeu o emprego pela bebida e trocou a bebida pelo crack.  Na rua e na chuva, Jaime/Zé sente o rosto frio pelas gotas que se misturam em sua face embargada.  Não consegue ver horizontes.  Hoje ainda não se sentiu fissurado pela droga mas sentia o estômago e o corpo roncar de fome e de ressaca. Um carro prateado pára e lhe assobia: oferecem-lhe um tapawer com uma comida típica. Mais um dia de Belo Horizonte. 

Veridiana e Claude.  Param o carro e entregam um bocado de comida de bom tempero e morna para um indigente envelhecido das ruas de BH. Claude eleva a voz com Veridiana porque ela deixara chover dentro do carro novo.  Veridiana adota a tática de não ouvir para não brigar e expira mais forte ao calar-se.   Claude é arquiteto e tem um escritório nas Mangabeiras; Veridiana, enfermeira-chefe de um Pronto Socorro.  Moram em um condomínio de classe alta no bairro de Pampulha.  Claude, nascido em Toulouse, ligado em artes plásticas, cinema francês e italiano.  Veridiana, mineira, caseira, amorosa, fã de MPB, Toninho Horta e do Clube da Esquina, em especial.  Conheceram-se em uma noite chuvosa no Carnaval de rua de Diamantina, sua cidade de nascença. Em meio a uma chuva de fogos de artifícios, reconheceram-se ao primeiro sinal.  

Veridiana se sentia totalmente sem ação quando via um velho morando na rua e indignada quando via uma criança nesta situação.  Indignação, aquela mosca sem asas. Só o que a fazia ficar paralisada a este ponto era o pôr do Sol visto da Raja Gabaglia.  A cidade assumia um tom amarelo envelhecido, o tom do indigente se espalhava pelos prédios, morros, pelos botequins e pela sem graceza de sua vida com Claude.  Sinal amarelo.  Claude avança o vermelho e atropela um senhor de seus 40 anos.  Sangue varrido pela chuva: sem leite e sem rosa do povo. A visão borrada não permitiu a ninguém identificar o número da placa do carro que acelera quase desgovernado.  Um romance que chegava ao fim sem fogos e sem artifícios.

Pedro estranhara a demora do primo de Sete Lagoas e tenta chamá-lo pelo telefone. Nada. Reinaldo estava, neste momento, tentando socorrer um senhor desacordado ali na Rua Rio de Janeiro, próximo ao antigo Teatro Clara Nunes.  Não conseguira identificar a placa do carro que fugira em alta velocidade.  Teve a ajuda de um bêbado para tirar o homem da rua.  Conseguiu ligar para o 192 e pedir auxílio que, para seu espanto, veio de modo impressionantemente rápido.  Ele, amarelo de raiva, o outro de fome e o terceiro de hemorragia. O encontro daqueles viajantes solitários reacende a leveza alquímica de foto antiga do pôr de Sol que não viera naquela tarde de céu chumbo. É o que fica registrado na lente e na memória de Hernane que, do quinto andar, espreme, em sépia, um quinhão de sutileza da amarga cena. Gotas verticais perduram. O destino humano em miniatura...

3.3.10

Adolescência e drogas.


(Texto publicado na edição da Revista Ser Médico - 
Edição 50, de jan/fev/mar de 2010)


"Nossos adolescentes atuais parecem amar o luxo. Têm maus modos e desprezam a autoridade. São irrespeitosos com os adultos e passam o tempo vagando nas praças, mexericando entre eles. São inclinados a contradizer seus pais, monopolizam a conversa quando estão em companhia de outras pessoas mais velhas; comem com voracidade e tiranizam os seus mestres.”


Embora pareça atual, esta observação foi feita por Sócrates há mais de 2.500 anos e ilustra o muito que já se falou sobre o assunto. Além de período de tomadas de decisões, a adolescência é uma fase de vulnerabilidades e oportunidades. Rondam-na, ao mesmo tempo, a sorte e o perigo. É, também, a de maior aprendizado da vida, marcada pela criatividade, expansão dos horizontes, esperança e experimentação. No aspecto neurológico, há intensa poda e reconexão neuronal. O desenvolvimento de novas conexões conduz, para o bem e para o mal, à fixação de comportamentos ou habilidades.

O adolescente está propenso aos novos contatos, ao descobrimento do amor e das habilidades musicais e artísticas, do sexo e, infelizmente, do álcool, tabaco e outras drogas. A impulsividade, a inexperiência e a receptividade intrépida aos desafios podem levar a consequências indesejadas, como a gravidez precoce, acidentes automobilísticos e brigas corporais. Some-se a isso a pressão de grupos para condutas de riscos e o silêncio dos pais, muitas vezes descritos como amigões e camaradas – ledo engano. Aos pais não cabe apenas o papel de bom amigo. A vida gera frustrações, e privar o adolescente de ouvir “não” é uma forma eficiente de conduzi-lo a tombos maiores no futuro. E os pais devem saber dar exemplos – mais que com palavras – com o seu próprio comportamento.

Se a adolescência é, por si, uma fase preocupante desde Sócrates, a constatação atual de muitos estudos sobre o consumo de álcool a transformou em um grave problema de saúde pública. A idade de início de consumo vem caindo a cada levantamento. Quanto mais precoce o contato com álcool, maior a possibilidade de o relacionamento com a bebida evoluir a um padrão nocivo e o risco de dependência e desenvolvimento de doença crônica – prevalente em cerca de 10% da população brasileira, em alguma fase da vida. E mais, aumenta o risco de tabagismo – que leva à redução média de 10 anos na expectativa de vida – e a chance de consumo de outras drogas, como maconha e cocaína, entre outras.


Adolescentes conseguem comprar cigarros e bebidas com facilidade, apesar das leis que proíbem venda a menores


Estatísticas do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid ) e da Organização Mundial de Saúde (OMS) alertam para o fato de que os jovens bebem frequentemente e desde muito cedo. Dados do Cebrid apontam que 42% das crianças entre 10 e 12 anos já experimentaram álcool. Pesquisa recente sobre o consumo

 de drogas em populações de risco, do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras drogas (Cratod), revelou que seu uso começou aos 7, 8 ou 9 anos! Nessa população, o álcool e o tabaco geralmente apresentaram-se como precursores de drogas ilícitas como a maconha e o crack. Levantamento nacional da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Unifesp indica que as meninas já bebem tão frequentemente quanto os garotos. Nessa fase, o padrão frequente de ingestão é de cinco unidades de álcool por ocasião ou quatro, para mulheres – que são mais vulneráveis aos seus efeitos nocivos e à dependência. Cada unidade equivale a 10 gramas de álcool. O consumo nesse padrão pode prejudicar a tomada de decisões e o desempenho escolar, além de favorecer o envolvimento em brigas, a experimentação de outras drogas e a prática de sexo inseguro, aumentando o risco de DSTs e gravidez indesejada.


Segundo o National Institute of Health, a idade média de primeiro consumo vem caindo – de 17 anos em 1987, para 15 em 1996 e, finalmente, para 13 em 2003! Estamos falando de uma doença pediátrica e há fortes motivos para pensar que o mesmo ocorra no Brasil. E, talvez, até de maneira mais dramática, visto que não há fiscalização (apenas leis) sobre a venda de bebida aos menores.

Um estudo conduzido pela psicóloga Denise Leite Vieiraindica que o início do consumo de álcool ocorre na própria casa. Aos pais que pensam ser melhor às crianças beberem sob supervisão, o correto é criança não beber. Também cabe à sociedade exercer controle sobre o consumo de álcool pela exigência de políticas públicas. A proibição da propaganda, a redução de pontos de venda e o aumento do preço das bebidas demonstram certa eficiência nesse controle em alguns países, embora o Brasil, nada tenha feito nesse sentido. Amparada em altos lucros e poderosas ferramentas de comunicação, a propaganda de bebidas goza de relativa liberdade no país. Além disso, é praticamente impossível andar mais de 500 metros, em qualquer cidade brasileira, sem encontrar um ponto de venda de bebida. Sem contar que um litro de aguardente tem preço inferior a um litro de álcool combustível. Estudos em duas cidades paulistas de características diferentes, Diadema e Paulínia, tiveram resultados semelhantes em relação à probabilidade de um adolescente de 15 anos (aparentando a idade real) conseguir comprar bebida alcoólica em estabelecimentos comerciais. Cerca de 90% dos jovens conseguiram fazê-lo e, na maioria das vezes, sem a solicitação de quaisquer documentos.

A proibição de venda de bebidas a menores é largamente descumprida. Uma lei só será respeitada se bem fiscalizada e a sociedade cobrar seu cumprimento. É frustrante, nesse sentido, observar que a fiscalização da lei que versa sobre o beber e dirigir seja mais branda atualmente. A fiscalização intensa no início de sua vigência poupou muitas vidas, principalmente de adolescentes que misturam a inabilidade na direção com o binge drinking (uso excessivo de álcool em uma única situação).

O efeito da propaganda sobre o comportamento adolescente é bem documentado e motivo de preocupação da comunidade médica mundial. Embora a indústria do álcool e tabaco argumente o contrário, sua publicidade é dirigida às crianças e jovens, com forte apelo emocional, que envolve elementos associados ao glamour, alegria, festa, popularidade, maior poder de conquista etc. Frequentemente, utiliza ícones do esporte, da música e da cultura popular como garotos-propaganda.

Em relação ao álcool, seria um avanço acompanhar a política adotada contra o tabagismo, que foi reduzido à metade no Brasil em 15 anos. As leis foram mais claras e coibiram a propaganda de tabaco vinculada aos esportes e eventos culturais. No entanto, a poderosa indústria do álcool conseguiu que a proibição da propaganda de bebidas se restringisse àquelas de teor alcoólico superior a 13 GLs. A recente notícia de que uma marca de cerveja brasileira patrocinará a Copa do Mundo de 2014 é um revés duro para a saúde pública.

Ainda em relação ao tabagismo, a sociedade foi muito ativa no cumprimento da recente lei antifumo e cada cidadão passou a ser um fiscal, pois a percepção dos benefícios foi imediata, mesmo entre a maioria dos fumantes. Proteger adolescentes que começam a fumar em festas e casas noturnas – por pressão do grupo ou “apelo” social –, além dos trabalhadores nesses ambientes, constituiu uma dupla vitória. Mas ainda não podemos comemorar: embora a venda de cigarros seja proibida para menores, a prevalência de tabagistas entre adolescentes de 17 anos já é quase igual à da população adulta, indicando que essa lei, assim como a do álcool, também é largamente descumprida.

Há esperanças? Sim, as estatísticas sugerem que a maioria dos jovens não evoluirá para padrões problemáticos de consumo de álcool. Mas uma grande parcela poderia estar melhor protegida se houvesse medidas efetivas de prevenção seletiva (como a detecção precoce) e universal (bloqueio de propaganda, por exemplo).

É fundamental compreender a adolescência como uma fase em si, e não apenas uma transição entre outras duas, bem definidas – infância e vida adulta. Compreendê-la e abordá-la requer atitude positiva, na qual o termo “aborrecente” não apenas se revela inútil, mas cheio de preconceitos que tendem a aumentar a incompreensão entre gerações. O adolescente não é uma criança em corpo de gente grande ou um adulto que, às vezes, age impulsivamente. É um adolescente, com crises, glórias, preocupações e ambições. Um novo modo de olhar esse jovem, caso queiramos abordá-lo, deveria começar pelo maior interesse em que se cumpram as leis já existentes para protegê-lo, o que dificilmente será conseguido com um discurso frio e austero. Sem cercear a felicidade ou a liberdade do adolescente, essa preocupação deve fundamentar-se na preservação de seu potencial, na promoção de um estilo de vida saudável e na proteção da exposição precoce ao uso de substâncias psicoativas.