28.12.09

Máscaras do ócio





“Não fosse tamanha preguiça, teria feito muito mais besteiras na vida...” (M. Quintana)

“...tanto o trabalho como o tempo livre podem proporcionar bons frutos se forem cultivados acuradamente, de modo que o primeiro não se deturpe transformando-se em brutalidade e alienação, e o segundo não degenere em tédio, dissipação, uso de drogas ou violência.” (Domenico De Masi)

Movimento 1. O ócio dançando um partido-alto com o trabalho.  

Paulinho da Viola usa o tempo vago com o seu hobbie de marceneiro. Mostra seus feitos como se estivesse tocando alguns de seus doces sambas, no mesmo estilo lorde brasileiro, caso tal estilo existisse. Valéria se pergunta por que é que as pessoas se levantam tão logo o avião pousa e ficam todos em pé no meio do corredor, o que acaba atrapalhando o fluxo que poderia, de outra forma, ser mais natural. O mesmo se repete na espera das bagagens que não chegam na esteira.  E todos sabem que a sua é sempre a última a chegar. Parece que estamos sempre em fila, atentos,  atrasados e acabamos por perder a avaliação do que atualmente está a nosso alcance, o que nos lança num futuro incerto, reclama. Quase que uma dissecação anatômica da palavra preocupação.  “Por isto tantas pessoas ansiosas e o consumo exagerado de antidepressivos”. Pensa que algumas pessoas vieram ao mundo a trabalho e outras a passeio. Gostaria de ser do segundo grupo, mas sente um peso na consciência que não consegue arrancar nem a fórceps.

Movimento 2. Estamos preparados para o ócio?  

Zeca Pagodinho declara à imprensa que agora sim, vai começar a aproveitar a vida, pois já criou muitos filhos, dele e dos outros. Alguns riem, outros percebem que ele está falando sério mesmo. Joana tem três filhos e preocupa-se em como fazer as contas fecharem, como Lady Madonna na eterna música beatle. Gosta do que faz, é funcionária de uma lanchonete, onde seus pratos criativos são elogiados frequentemente, mas ressente-se com o que consegue ajuntar. Pode se tornar sócia do negócio, caso as coisas continuem indo bem. Gostaria de ter mais tempo vago para as crianças, mas no final de semana sente-se tão exaurida que não consegue ficar em paz com seus pequenos. 
Talvez alguns estejam mais preparados para o ócio que os outros, ou tenham ocupações que aparentam mais swing e fruição. “Faça o que você gosta e você não se sentirá trabalhando um dia somente!”  Será?  Joana gostava de música e aprendera a tocar piano intuitivamente, mas nunca pensara em ganhar a vida com isto. Um amigo músico lhe falou: “Quer deixar de ser um músico amador?  Torne-se um profissional e fique no final da festa desmontando os equipamentos...” Pode ser mais recompensador fazer o que se gosta nas horas vagas? Há como costurar trabalho e lazer em um moto-contínuo, que se estende até os sonhos, como pretendia Domenico De Masi, gerando intuições produtivas e criativas?  E se possível, quem é que gostaria de fazê-lo?  Por que todos os que tanto elogiaram o ócio, como De Masi, Bertrand Russell, o francês Paul Lafargue e Hermann Hesse eram prolíficos workaholics

Movimento 3. O ócio como mercadoria de luxo.

Dr Carlo é um médico endocrinologista bem sucedido.  Atua na cidade mais populosa da América do Sul.  Coordena um serviço de tratamento e orientação a pacientes diabéticos.  Lida com uma doença crônica e, sabidamente, de difícil controle.  Ressente-se com os baixos investimentos governamentais nesta área tão importante da saúde.  Está planejando suas férias de fim de ano. Fica impressionado ao constatar como os banners de anúncios turísticos contaminam toda a paisagem possível da internet e, do mesmo modo, as agências nos pequenos vãos e micro-espaços entre as escadas dos shopping centers. Parece-lhe até que viajar e ficar à toa é uma obrigação, não um direito. Obrigação que Dr Carlo cumpre anualmente, à revelia.  O pai, cirurgião cardíaco, dizia que médico não viaja, vai a congressos. Dr Carlo é um rato de sebo.  Ali encontrou um livro de Eric Hobsbawn que lhe explicou porque não conseguira ficar preguiçosamente rico com o sonho da bolsa de valores: os tais ciclos de Kondratiev, as contrações espasmódicas e periódicas da economia sobre si mesma, que muitos estudiosos teimam em contradizer mas que a experiência reiteradamente escancara.  Pensou que aqueles tombos poderiam ser um bom estímulo à retomada de sua carreira.  Planejou o doutorado, onde avaliaria o sucesso de um sistema de seguimento de pacientes à distância, utilizando a tecnologia de vídeo-conferências e um registro on-line de glicemias num software alemão.  Seria o seu décimo quarto ou quinto artigo internacional, um lugar esplendoroso na academia, respeitabilidade, horários supostamente mais flexíveis e talvez o tão aguardado filho.  Ludmila, sua esposa, era fisioterapeuta especializada em reabilitação psicomotora em acidentados.  Trabalhava seis horas por dia.  Academia, leitura, salão de beleza, atividades voluntárias e MSN ocupavam o seu tempo no restante do dia.  Definia-se como caseira, desobstinada, tranquila. Criticava a velocidade do mundo e especialmente de Carlo, que, ironicamente, chamava de Dr. Carlo. E o tal Dr. tanto lia nos livros o exemplo que sua companheira, em sua simplicidade e desembaraço, servia à mesa todos os dias.

Desfecho - O elogio ao ócio.

O elogio recente ao ócio será apenas mais uma máscara do hiper-trabalho, que agora pretende atravessar as fronteiras dos escritórios e acompanhar-nos casa adentro, via rede de computadores? Pedro, professor de história, acha que não.  Na verdade, pensa que as novas formas de relação com o trabalho, contrariamente ao que se imaginava, pode liberar tempo livre para aqueles que dela puderem lançar mão. Façam-se as contas: quanto tempo foi economizado em filas de bancos, compras de passagens, trânsito e compras on-line? Sua rotina: aulas noturnas, um escritório em casa, um curso virtual de história para vestibulandos, um apanhado de questões resolvidas em seu site profissional e novas notícias sobre datas de inscrições no sistema de microblogagem conhecido como twitter.  Assim passa boa parte de seu tempo livre. Interessou-se novamente por mitologia comparada e fica tentando adaptá-la à vida moderna com graus variados de sucesso.  Pensa que estamos vivendo um privilegiado intervalo lúcido de transformações e revê “Tempos Modernos” sem o mesmo medo de ser engolido por aquelas engrenagens.  É um entusiasta do ócio, só não consegue trabalhar as parcas quatro horas por dia, sugeridas por Russell.  Gosta de frequentar a feira de flores da CEAGESP, motivo único a roubar-lhe o sono matinal, que é seu vício predileto, depois da cachaça de Salinas.  Lá chegando, encontra seu Vicente, já de pé desde as 4 horas da manhã, com um pão de queijo no estômago e um aguardente industrializado no hálito, completamente consumido em 40 minutos de caminho transcorridos em sua bicicleta barra-forte velha de guerra, com as típicas paradas estratégicas. Pensa Pedro: “É...(...)... para o Vicentão, estas coisas de ócio e organização do trabalho não saem do papel”.  Vicente, por sua vez, está de costas para a entrada da caverna e não vê as luzes fulgurosas do outro lado. Não sabe ler, não tem dois dentes no sorriso e não perde a novela das oito. Mas como todo forte se define mais por aquilo que é que pelo que não é. É um cuidador de flores. Em casa e no trabalho. Um desses doidos que conversam com flores e que afirmam que escutam respostas. Pede à mulher que enfrente a fila do banco para pagar as contas de luz, telefone, aluguel e do mercado, que ele não tem mais idade ‘pr’essas coisas’. Espera  o professor de história todas as sextas. Tomam uma cachaça mineira e falam bobagens sobre como a vida era ou poderia ser boa. E volta para o que gosta mesmo. Gosta mesmo é das flores, o que é quase um paradoxo para um sul mato-grossense que tem as mãos tão duras de enxada desde os oito anos e que nunca soube direito o que é o tal do ócio. As flores não vêem paradoxo algum.


(Feliz 2010!!!)



25.12.09

"O Mundo"


(Sobre o Luto - Ou: "Um pequeno sopro de restauração para aqueles que perderam pessoas amadas".)


Era o segundo Natal de Maria sem seu filho.  Fora uma perda rápida, sem tempo para despedidas e sem tempo de dizer o essencial.  Mas a conversa dos dois era mesmo subentendida.  Deixaram de contar alguns segredos que acabaram morrendo como tais.  
O filho batera o carro em alta velocidade.  Ao que parece, tinha bebido. Por sorte, pensava Maria, não levou consigo mais ninguém.  Por azar, não havia sido ela em seu lugar. A namorada havia ficado em coma por dois dias e, tão logo recebeu alta hospitalar entrou em desespero ao saber da tragédia que a concussão havia lhe prevenido de perceber. 
Maria tinha 62 anos e era a filha mais velha de uma família de três mulheres, todas elas professoras. Não era religiosa e o golpe recente lhe furtara o que restava de dúvidas.  Mas o desejo de reencontrar o filho a impunha um quê irracional de esperanças que botavam em xeque suas crenças.  Alguns amigos sonhavam com o filho e, repetidamente, a sua aparência era a mesma - mais novo, alegre como sempre. Havia concluído os estudos e conseguira um trabalho com carteira assinada. Ela só via as coisas como eram e agradecia o esforço daqueles que tinham coragem de lhe falar sobre o filho Pedro.
Naquela semana, alguns fatos estranhos cercaram a casa de mistério: o gato que criava, cujo nome era Napoleão, repentinamente reaparecera, após quase dois meses de um sumiço inexplicável. Alguns barulhos estranhos pela noite se confundiam com o enredo do sonho.  Um velho álbum de fotos da infância do filho ressurgiu no sótão da casa.  Evitou revê-lo, pois não se sentia pronta. Procurou seu baralho de Tarô e decidiu jogá-lo. A carta "O Mundo" lhe sugeria uma viagem enorme a ser traçada no próximo ano.  Pensou no gato, no álbum de fotos e não se pôde decidir acerca do vetor da viagem - apontaria ele para fora ou para seu íntimo?  Decidiu que a única maneira de sair daquela situação era fazer com que os dois vetores apontassem na mesma direção.  Só saindo de dentro de si mesma poderia lançar-se no desconhecido. Só em outro país, outra cidade ou outro amor poderia re-conhecer-se e reencontrar-se.  Foi por isto que teve energia de preparar a ceia, de convidar a todos e de fazer questão que participassem.  Poderiam trazer as bebidas que quisessem, Maria não era radical nem se convertera a lutar contra o alcoolismo.  Era apenas uma pessoa de bom senso, sem nenhuma habilidade ultra-especial e que sofria. Uma história que poderia ser de qualquer um e que era a dela. 
A vida, para Maria, era fluxo e, com o virar das estações, percebera como todos carregavam perdas - a sua não era a única.  Apenas a mais insuportável - não imaginava que  dali em diante pudesse provar outras aflições ou sabores. Esta era a maior - e abafada - dor:  a perda, paradoxalmente, a tornara mais forte, ainda que às custas de um certo cinismo e de um ar acinzentado que lhe saía dos pulmões - chaminé de uma lareira sem brasas.
A preparação da ceia seguia ritmadamente: os mesmos pratos de sempre. O sal das lágrimas retidas não chegou a mudar o sabor maravilhoso daqueles excessos: apenas a boca é que se negava a sentir os gostos como eles poderiam e deveriam ser. Uma falta de alegria no ar.  Não havia tristeza. 
Os convidados iam se chegando, já eram nove da noite do dia 24.  Havia um certo não dito entre as pessoas.  Alguns parentes inventaram desculpas para não participar da ceia, prevendo que não suportariam aquele ar nostálgico. Outros arriscavam piadas curtas de salão. Ela ria ora com gosto, ora por cortesia. Estava com seu vestido novo, comprado para a ocasião, como se aquela pele fina, cor de pérola comprada no shopping recém-inaugurado, pudesse esconder um turbilhão de emoções ressequidas que a habitavam.
Antes do início da ceia natalina, Tia Ofélia se prontificou a fazer a oração, mas Maria logo vetou: "Não é preciso oração - a família reunida já é uma oração".  Mas acabou se traindo e, em silêncio, sentia, como que por milagre, a presença de um sopro de restauração no ar, como nos dias em que se acorda sem febre após uma longa enfermidade.  Acolheu, pela primeira vez em meses, o calor do corpo de outras mãos e pessoas.  Pôs-se a rezar enquanto comia e devorou cada uma das palavras que a intuição lhe trazia.  Sentia-se viva. Haviam se reunido por ela.


15.12.09

Quatro Por Vinte


A noite era escura, ventava... Ameaça de chuva, mas ela sentia que podia seguir. Tomou um fôlego mais e refez as contas: sentia-se com medo, uma inquietação difícil de explicar, e, por outro lado, uma excitação doida, mais difícil ainda de compreender...  Tudo aquilo a habitava ao mesmo tempo de modo amalgamado e fervilhante.  A excitação empurrava o medo, que, em contrapartida, só fazia o desejo crescer.  "Por que cargas d’água isto tinha que acontecer justo comigo?"  Por que precisava se sentir como diante de uma prova de vestibular, diante da máquina afiada do torturador a cada semana, dia e hora? A turbulência é bruscamente interrompida pelo trovejar e, para sua sorte e decepção, seus planos foram por água abaixo.  O seu pavor medular da chuva, naquela bruma tenebrosa da cidade grande, a salvou de passar outra noite insone na favela, trocando seus sonhos pela química volátil, empedrada e clara dos bruxos modernos...
Naquela noite ela conseguiu dormir mais cedo,  teve um sono conturbado e acordou aos prantos antes de todos na casa.  Eram as dúvidas dos vinte anos de idade?  Era a saudade do namorado, sumido na encrenca da noite há quase uma semana?  Ou era só o que os doutores chamavam de crise de abstinência e que ela, em sua incredulidade e inocência perdida começava, muito a contragosto, a compreender? 




*****




A noite estava apenas começando. Eve conseguiu sair de casa mais cedo e fugiu do trânsito afogado da metrópole naquela noite de chuva.  Teve que esperar os amigos.  O tempo fluía em outra frequência na casa noturna ainda quase vazia - era exatamente do que mais gostava.  A música já seguia seu ritmo de quase mantra, em batidas e ritmos eletrônicos e jogos de luzes caprichosos que a deixavam em outra voltagem.  Tomou a segunda bala da noite.  A primeira foi com um Red Bull, ao sair de casa; era o seu comprimido preferido, aquele que vinha com o coelhinho da Playboy.  Esperava um amigo italiano que tinha um microponto especial que ela aguardava ansiosamente por experimentar.  Ele mandou um torpedo em inglês dizendo que chegaria dali a meia hora e que ela se preparasse...  Reforçou a maquiagem.  Usava um vestido curto e tinha um estilo retrô que lembrava a década de 70 do século que vem. Tomou mais uma água, era a terceira ou quarta da noite. Bebia mesmo sem sede, por precaução.  O DJ principal só entraria às quatro horas, era a balada do ano, como tantas outras naquele ano.  O italiano chegou.  Por um momento ela pensou: “Como ele é lindo... mas deixa prá lá...”  Tomou um quarto da dose e depois mais um quarto.  Sentia-se eufórica, ia esmerilhar na pista.  Suas amigas chegaram e disseram que a chuva tava foda lá fora.  A noite começou a bombar. Um carinha chegou para conversar com ela, mas estava bêbado demais.  Ele até que era engraçado e não demorou vinte minutos para vê-lo sentado numa das escadas, os amigos tentando levá-lo embora, dois degraus acima de uma poça de vômito.  Eve pensou: “Mais uma baixa...”. Retocou a maquiagem novamente. Mais uma água.  Entrou seu DJ favorito.  Um guri bem bacana começou a dançar perto de seu grupo. Este não estava tão frito quanto os outros.  Eve passou uma senha pelo olhar: “Pode se aproximar”.  Sentia que a comunicação era com poucos olhares, e só um seleto grupo poderia compreendê-la.  Ele dançava de um jeito charmoso e insinuante e ela deixou-se levar.  Foram só duas ou três microfrases, o suficiente para uma troca de contatos de MSN. Ele era arquiteto, ela era ela... Acordou sob a pressão do trato que tinha feito com um primo de Campo Grande que vinha visitá-la.  O primo a levou a um restaurante vegetariano. Eram três da tarde de um sábado nublado.  Ela não tinha dormido mais que quatro horas.  Ao entrar viu uma frase na parede: “Torna-te quem tu és... Nietzsche”.  Releu e não entendeu direito, mas sentiu-se, novamente  e pela primeira vez, tomada.

*****



Helena gostava de literatura.  Só lia coisas do século passado.  Usava algumas das frases preferidas - que anotava em um bloquinho de capa dura - no meio do seu discurso. Era para impressionar e para fechar a discussão.  Não gostava que ninguém dissesse que aquilo era para impressionar.  Alguns do amigos achavam que ela ficava meio arrogante nestas horas e que a vida dos livros é diferente da que se vive aqui do lado de fora das linhas, onde importa saber o preço do peixe, da luz e do metrô. Também era fã de MPB.  Gostava dos nordestinos e do samba de raiz do Rio de Janeiro.  Não gostava destas coisas modernosas e das novas cantoras.  Sua predileta era Elis Regina, que era ao mesmo tempo mais natural e mais inovadora.  Sabia que todos teriam que concordar com isto...  Percebia o som de um modo diferente se tivesse fumado um.  Ali, alguns detalhes da percussão, a tridimensionalidade do som, a textura do violão ficavam mais claros. Podia dizer se o carinha que tava tocando tinha as unhas curtas ou compridas só pelo aveludado do som.  Sentia-se, ela mesma, aveludada. Só não gostava da larica, pois estava começando a ganhar peso e sua irmã mais nova já tinha falado: “Deste jeito, imagina quando você chegar aos trinta...”. Numa mirada rápida, Helena, que não era a mais bela, poderia parecer menos interessante do que, de fato, era.  Quando se cortava a gordura da música, da marijuana e das frases de efeito, garimpava-se uma menina doce, quase infantil, sonhadora e interessada no mundo.  O problema é que esta capa nunca se lhe desvencilhara.  Nem mesmo naquela noite, onde tantos mundos se chocaram na paulicéia chuvosa e em que ela preferiu ficar em casa, acender um e ouvir “Tranversal do Tempo”.  Teve um sonho bizarro, onde via pontes, luzes estroboscópicas, uma menina que nunca conhecera chorando em um quarto escuro e pensou: “Será que sou eu?”.  Acordou com o barulho da agulha se enroscando contra o papel do centro do LP.  Amanhecia. Era o começo de um dia nublado.





*****




“É só você não saber o que é não ser puta e você nunca será uma puta...”. Foi o que ouviu na primeira casa em que trabalhou. Nunca se esquecia desta frase e, nos dias em que não estava bem, era o que a fazia tolerar alguns dos homens intragáveis e feios. Nestas horas pensava em como devia ser bonito o mar e gritava como se estivesse mergulhando nele. Ângela/Kátia tinha treinado o seu corpo para produzir as mesmas borbulhas que o mar faz quando se bate nas rochas. Era o mesmo que sentia nas noites de fome, quando a cola - que os meninos da ponte lhe davam em troca de favores - fazia sua cabeça chocar contra o asfalto e contra o sono. Só assim não ouvia os gemidos aterrorizantes das sirenes da Veraneio policial. 
Chegara naquele inferno aos 15 anos, pois já tinha corpo de 18 ou 19.  Arranjaram para ela um documento falso, nomes de pai e mãe, um penteado e um vestido novo. Lembra-se que este foi o primeiro dia em que sentiu um negócio estranho e que parecia ser bom.  Um cabeleireiro amigo seu, que cuidava da apresentação das meninas da boate, disse que aquilo era felicidade, Ângela/Kátia desconfiou, mas também não tinha argumento para dizer que não fosse. Essa palavra - argumento - tinha ouvido numa novela e ficou interessada em saber o que queria dizer.  Dormia com ela na cabeça, como uma criança rica devia ficar agarrada com seu ursinho de pelúcia.  Foi o que pensou naquela noite de chuva, quando deu seu terceiro filho para adoção.   O segundo filho tinha sido “um acidente de trabalho”, como disseram as amigas.  O primeiro e o terceiro eram filhos do mesmo “sem-vergonha, filha da puta que me meteu naquele mundo” e “que ganhava nas minhas costas”. “Ainda por cima era ruim de cama...” Não tinha mais o tal “argumento” para continuar naquele sofrimento. Tinha 22 anos, era o que dizia o seu documento.  Numa das pontes da 23 de Maio, ficou em dúvida entre a fileira de luzes brancas e vermelhas. Ficou em dúvida entre Ângela e Kátia. Pensou que era mais garantido se escolhesse as luzes brancas.  Lembrou-se de seu amigo cabeleireiro, sabia que ele ficaria bem com o tempo... Chovia cada vez mais forte, por todos os lados. Teve a impressão de que um amigo trouxe uma lata de cola. Mais depois viu que era coisa de sua cabeça assustada pelos trovões ou do outro mundo que se aproximava. Sentiu o corpo bambo, trêmulo. Estava firme. “Você nunca vai saber o que é ser puta...”.  No meio do caminho, sem tempo para se arrepender, teve um pensamento besta, enquanto a luz branca se aproximava em alta velocidade: “Minha sandália escapou!”.   


11.12.09

A Morte do Grande Professor

(ou: "Uma historieta baseada em fatos e boatos...")

Como de costume, acordou em cima da hora. Correu para a padaria da esquina. Vinha pensando se deveria parar de beber ou não. Geralmente pensava nisto às segundas-feiras, mas desta vez sentia que a coisa toda estava cada vez mais séria... Decidira fazer como sempre, ouvir as notícias do dia, quentes e mornas no jornal, para ter do que reclamar. Neste dia, como era habitual, já lhe chegaram com um cheiro de velhas e emboloradas: corrupção à miúda e à larga, um piloto que admite ter batido o carro de propósito (obviamente não sem propósitos...), a compra ou não compra de novos caças para a força aérea, terrorismo, o Senador que sai ou não sai do Congresso, colunistas indignados e mais dinheiro em cuecas e meias... Nada disso, nem todos os impactos somados repercutiram tanto quanto a bomba ouvida ao balcão da padaria - seria um sinal a lhe motivar para retornar para sua casa e para a família, há tanto tempo olvidada?




Iniciou, como de costume, conversa com o seu Zé, figura lendária da Vila Mariana, como tantos outros micro-verdadeiros-heróis nordestinos, de sotaque difícil, fala rápida e mãos ligeiras no preparo de cafés, médias e na lavagem das louças. Seu Zé era como um noticiário, um outdoor do tamanho de gente, um blog do século retrasado, um inventário de histórias não publicadas...



“Escuta, seu Zé, aquele professor cego que vinha aqui sempre, sumiu... o que aconteceu com ele?”



“Ah, faz uns dois meses que ele morreu, não sabia não?” (Dito assim mesmo, à queima-roupa e sem levantar os olhos do que estava fazendo).



“Não! Não sabia, que coisa! Ele estava doente? Puxa vida!”



“É, ele tava doente faz um tempinho... me disseram que ele tinha câncer de algum canto aí que eu nem sei de onde era, visse?”



“Êta doencinha...” - Àquela altura, começou a pensar em parar com aquela vida besta... e confessa para si o medo de morrer do mesmo jeito.



Seu Zé, levanta a sua cara velha, de rugas caprichosamente mal distribuídas, e assume um ar ainda mais árido: “E aí o médico falou que ele tinha só mais alguns meses... ele falou: então tá... começou a ficar em casa, quietinho...”



“Ele vivia sozinho?”



“É, vivia, sim. Mas ultimamente, a gente não sabia por onde ele andava. Ele recebia dinheiro de duas aposentadorias - uma dos Estados Unidos - que ele trabalhava por lá antes de ficar cego e outra do Brasil, então ia se mantendo e não saía daqui... (Ia falando, assim, sem ponto nem vírgula, que é até difícil da gente imitar...) e ele tinha um apartamento aqui pertinho e deu o apartamento para uma casa de caridade...”



“É mesmo! Que bacana! Ninguém mais faz isso hoje em dia, não é?”



“Pois é. E também deu aquele cachorrinho dele, uma semana antes de morrer...”



Aquilo foi demais, não conseguiu prestar mais atenção naquela fala embolada do seu Zé, a exclamação enroscou-lhe na garganta e não havia manteiga ou leite que empurrasse para baixo: imaginar uma pessoa cega, em seu apartamento, esperando a morte, provavelmente com dor, e, ainda por cima, se desfazer do cachorrinho. Que grandeza de alma, que desapego, que solidão... Se alguém podia se desprender do seu cãozinho quando nada mais tinha, ele também podia se desvencilhar da vida de balcão...



O apartamento, vá lá, tudo bem, ele não iria mais precisar dele, mas dar o seu último companheiro... Deve ter pensado que, quando morresse, o cachorrinho poderia ficar sem ninguém e que era, afinal, o momento de doá-lo. Isto deve ter sido uma das experiências humanas mais difíceis, mais terríveis...



Mas aí pôs-se a inculcar que era também o que inaugurava o que se pode chamar de experiência humana. Sem testemunhos, sem colunas de jornal, apenas as lembranças de como a vida - dura, dolorida, exata, um relógio sem cuco - também pode ter seus poucos momentos de inflexão onde tudo, realmente, ganha vida e, por isto, vale a pena...



E a saudade, dele, o grande professor cego, com quem nunca conversara, ao vê-lo chegar provocando todo mundo com seu bom humor de um oceano sem essa claridade que nos ofusca, pedir um pãozinho na chapa e um café longo: tantas lições no balcão de uma padaria e ninguém para aprender...



Então o homem parou de refletir. Terminou seu desjejum, e, como de costume, pediu a comanda, pagou a conta, agradeceu uma e outra vez mais e decidiu seguir o seu caminho.

8.12.09

Por que algumas pessoas não mudam?



Heráclito e Parmênides.  Há quem diga que depois da discussão entre a estabilidade e a mudança não houve outra questão filosófica tão importante: “O que vemos é um objeto em constante transformação, como o homem que não se pode banhar duas vezes no mesmo rio ou será a mudança apenas uma ilusão da nossa compreensão (o que é, é e o que não é, não é...)?”
Longe de minhas pretensões aventurar-me por terreno tão movediço onde tantos outros mais vigorosos tentaram extrair luz e deram com os burros n’água.  Mas que dá uma coceira de se lançar a pensar se as pessoas realmente mudam, ah! isso dá...
Façam suas apostas: há quem diga que a personalidade, que é a soma dos fatores ambientais e herdados (caráter e temperamento, respectivamente), e que se firma por volta dos 18 anos. Daí em diante, apenas pequenas mudanças são possíveis, sendo que o grosso da personalidade já está posto. Resumindo, o oleiro precisa moldar o vaso antes que o barro esfrie.  Em contrapartida, há quem afirme justamente o contrário, como Karl Jaspers, fundador da psicopatologia: o ser humano é sempre incompleto e incompletável - como se o mais importante fosse o desenho no vaso, feito após o barro frio...
Quiçá um meio-termo aristotélico seja possível: a capacidade de mudança pode ser, ela mesma, uma característica e função da personalidade, ou, ao menos, de algumas constituições de personalidade.  Pode ser que a coisa se dê da seguinte forma: fulano aprende ao enfrentar um novo desafio (seja pela dor ou pela recompensa) e traz em si os novos ganhos deste aprendizado. Bem ao estilo de Hércules, que embebeu suas lanças no veneno da Hidra de Lerna para as próximas etapas de sua jornada.
Já para outros, contudo, o tombo não faz com que se busque o equilíbrio.  Há sempre um terceiro envolvido - pessoa ou entidade, real ou irreal - que pode ser recrutado para dividir o fardo do tropeço: “o chão está irregular”, “algum mal-criado jogou uma casca de banana no caminho”, “eu sou azarado mesmo”, “o mundo conspira para meu fracasso”... as possibilidades são muitas e o mecanismo persecutório, incessante (ou como preferia Quintana - a paranóia desconfia de tudo e de todos, menos de si mesma...). 
Isto poderia explicar porque alguns preferem a inércia, ainda que atrelada a uma situação patológica ou de sofrimento - a dependência de drogas, o alcoolismo, o sedentarismo ou uma postura emocional rígida - à mudança. Dois exemplos  desta atitude de estagnação estão nos filmes “Factotum - Sem Destino” e “Os Dispensáveis”. A permanência, nestes casos, é o não assumir o compromisso de co-criação da realidade, onde o sujeito é, ao mesmo tempo, autor e personagem de seu romance pessoal: toda mudança traz em si o medo do desconhecido, os folguedos da novidade (ainda que assustadores).  
Por vezes, presencia-se pessoas em estágios iniciais de mudança - por exemplo, ao deixar de consumir uma droga de abuso ou álcool, ou ao se livrar de sintomas paralisantes de ansiedade ou depressão - onde o novo status leva a um desequilíbrio de forças na relação familiar ou conjugal, o que faz com que uma pressão - consciente ou inconsciente, intrapsíquica ou interpessoal - carregue em sua vazante o embrião revolucionário da conquista. Não são só determinantes pessoais que emperram a capacidade de mudança: a pressão dos pares, da mídia, da família, da adequação social, do politicamente correto, etc...
Cabe aqui uma advertência! Para quem pensa que se ganhasse na loteria ou se ficasse seriamente doente e incapacitado, aí, sim, mudaria alguma coisa em sua vida: ledo engano... isto já foi pesquisado e, aproximadamente um ano após o evento (sorte ou azar profundo), a qualidade de vida e satisfação voltam ao mesmo patamar anterior. Desta feita, correndo o risco de cair no lugar-comum, o que permite a reviravolta não é tanto o que o mundo faz com a pessoa, mas sim o que esta faz com o que o mundo lhe propõe enfrentar. Ou seja, paradoxalmente, algumas grandes mudanças podem não se realizar com fortes pressões externas.  O provocativo filme Ikiru (Viver) de Akira Kurosawa mostra diametralmente o contrário: um funcionário público que, diante de um forte revés revê seus valores e volta-se ao desconhecido espaço de pensar mais nos outros que em si próprio.
Em épocas de fim de ano é frequente que as pessoas desfrutem de um tempo extra para relaxar e acabem fazendo um pequeno balanço do terreno percorrido e dos desafios vindouros: iniciar uma poupança ou uma atividade física, aprender uma nova língua e a falar não, deixar de beber por dois meses, parar de fumar pela vida toda, frequentar uma religião, ler um livro por semana, arrancar os dentes do siso, oferecer-se ao voluntariado...  
Nada disso, no entanto, gera uma real mudança se dois aspectos não forem claramente observados: o primeiro deles é a resposta à simples pergunta: “Onde estou?!?”. A meu ver, é uma pergunta mais prática que a hermética e emblemática “Quem sou eu?”, uma vez que esta é insolúvel e gera mais calor que luz.  “Onde estou?” remete a pensar em que lugar de uma dada caminhada o sujeito se encontra - ainda que não saiba direito como ou porque ali está - e qual é o leque de possibilidades que se abrem em seu horizonte (alguns dos panoramas só são compreensíveis aos visionários!). Só a partir de uma bússola afinada com o momento e a situação presente é possível medir uma real evolução. O segundo aspecto é o que, certa feita, ouvi um historiador chamar de “espiritualidade”: sem as conotações inter-excludentes das múltiplas vertentes religiosas, espiritualidade significa simplesmente pensar mais nos outros e menos em si mesmo.
É evidente que alguns não aceitarão estas duas sugestões, uma vez que lhes parecerá simplório ou equivocado e devo, consequentemente, concluir que não fui capaz de responder à questão que deu título a este pequeno esboço - mesmo que tenha sido uma bela isca... Ainda assim, despretensiosamente, sugiro aos leitores que reflitam sobre estas duas pequeninas tentativas, que estão longe de ser uma demolição de um edifício e sua reconstrução desde a fundação, mas, tão somente, abrir as janelas e deixar a brisa e a luz desfilarem mansamente, revelando cores, sons e aromas que ficaram esquecidos em seu potencial de aconchego, criação, transformação e beleza...


3.12.09

Mestres atemporais

Esta semana foi marcada pelo Dia Mundial de Combate à AIDS.  Há quem diga que a pior doença é a que se tem, mas a AIDS foi frequentemente comparada ao Câncer como uma das doenças mais temidas e constrangedoras.  Por sorte, há sinais de mudança...
A história da AIDS para mim foi muito marcante, pois surgiu antes do início de meus estudos médicos e, durante toda a faculdade e residência médica, nos idos dos anos 90, deparei-me diversas vezes com pacientes com esta doença (ok, a AIDS é uma síndrome...).  Uma das características que mais me chamam atenção no combate à AIDS é a velocidade das mudanças: temos 27 anos desde a descrição do problema e, quando comparamos a outras patologias, a evolução em termos de diminuição do preconceito e melhora das condições de vida do portador do HIV são acachapantes. O investimento em pesquisa, o processo de quebra de patentes (que ganhou por 52 votos a 0 na Câmara dos Lordes, lembram?) e a cobertura para o tratamento no sistema público (o Brasil é um dos países exemplo neste quesito) são alguns dos ventos desta mudança. No entanto, o risco de desemprego, subemprego e discriminação ainda são bem reais em nosso meio (o estigma social é mais importante que o grau do adoecimento, nestes casos).
Voltando às lembranças, durante a graduação, na saudosa Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, participei da construção da Liga de Combate à AIDS e às DSTs.  Era uma época de medicamentos muito mais tímidos e menos eficazes que os de hoje, com mais efeitos colaterais e menos alvos terapêuticos. 
Lembro-me que fazíamos plantões de apoio psicológico aos pacientes HIV+.  Os plantões consistiam, simplesmente, em passar 10 a 20 minutos conversando com o paciente que estava internado, ouvindo suas angústias, segurando suas mãos, marcando presença.  Não podíamos fazer nada, nem prescrever medicamentos, nem oferecer expectativas fantasiosas. Muitas vezes atrapalhávamos o trabalho de enfermeiros, técnicos de enfermagem e até da equipe médica. Os pacientes viviam, no mais das vezes, um misto de culpa, sofrimento físico e desespero e, como alunos, apenas podíamos marcar presença. Mas eles nos esperavam! E, invariavelmente, tinham algo a contar: lembranças da infância, um exame que saiu melhor que o anterior, a esperança de receber um parente que há tempos não via, a aceitação pelos pais de sua doença, uma notícia veiculada no jornal das nove, o medo da morte, o desejo de morrer. Nós só podíamos, invariavelmente, escutar, esperar, confortar, esperar, esperar...
A experiência, para nós alunos, era conflitiva, muitas vezes angustiante, mas, sempre, enriquecedora e luminosa.  Dali surgiram raios de humanização que persistiram, e persistirão, no modo de conduta de cada um dos membros da Liga: o dever do médico, como já dito, é o de curar mas também o de amparar.  Em épocas de Medicina Baseada em Evidências isto pode ficar esquecido - é bom lembrar que a sabedoria é a tomada de decisões qualitativas a partir de uma realidade quantitativa.  
O aprendizado com cada um dos pacientes da Liga de Combate à AIDS e às DSTs certamente contribuiu para minha escolha de especialização, que foi a Psiquiatria (etimologicamente, Cura da Mente). Muitos deles sofriam de alguma dependência química; ansiedade e sintomas depressivos eram quase que uma cicatriz universal de tantos fardos concomitantes. 
Aprendi com estes mestres-pacientes que é preciso, para fazer com gosto o trabalho de clinicar (etimologicamente, inclinar-se), saber assistir o ser humano em cada doente, escutá-lo em profundidade, estar presente para compreender seu sofrimento. Por fim, ter paciência para lidar com situações em que, muitas vezes, só a cartada final do tempo pode trazer alívio.
A todos aqueles mestres pacientes, muitos em memória, meu obrigado extemporâneo.