18.8.10

Vicejar


O rosto do menino pré-pubere, em seu começo de barba rala.
Aquele matinho ao lado dos trilhos das vias ferroviárias.
O aprendiz de feiticeiro encontra um livro de taoísmo.
A menina de seis meses em seu batismo.
Texto com frases soltas e sem durepoxi:
Vicejar.
Não querer escrever um poema é um vício matinal.
Mas e se fica parecendo um poema, com quem eu reclamo?
Me falaram que poesia bonita não tem pontuação.
Mas eu ponho ponto e ponto.
E escrevo uma frase longa e outra curta, que é pra sei lá o quê (talvez para não dar margens a críticas)
Vicejar
Voltar a sonhar e acordar atônito
Redescobrir um par de meias velhas e confortáveis
E perceber o Sol prateado das tardes de inverno
Que eu nunca tinha notado antes que não era vermelho quando se esconde
Que alumia minha descrença e flores que se negam a
Vicejar
Sei lá porque esta palavra na minha cabeça,
Mas diga lá: não tem horas em que se fica encafifado com algum troço
E por mais que se tente pensar na morte da bezerra ou na conta de gás
Vem aquela dor de ferida nova e que pode ser uma
Nova estrela que nos surpreende
Vicejar
E aí então se descobre:
Que largar um vício, morder uma tangerina, chorar de alegria
Ou então: ligar para sua tia doente, aparar o cabelo, recolher o lixo
E finalmente: tomar um chocolate quente no frio 
Tudo que a aba livre da sua alma requer é
Pra já!

17.8.10

Antiga toalha de cantina italiana


Aos meus avós, Ruy e Rachel, pelo aroma doce das goiabas no tacho de cobre sobre a brasa do fogão à lenha, pelos pingos doloridos que enfrentou quem se atreveu a rodar a colher de pau, e por aquela outra dor – muito, muito maior – da saudade, que – vai e vem tempo - não cessa de latejar.

Ao meu amigo Adelino, e tantos amigos de infância: 
"onde foi que nos perdemos?"


Quando voltei à casa de infância tudo estava mudado:  os espaços eram pequenos e a goiabeira não estava florida.  Antes, moleque, era sempre florida, e todos os cantos eram suficientes para me esconder - de brincadeira ou por arte da meninice.

Quando voltei àquela casa, fiquei meio emperrado... Onde estavam todos?  Cadê meu gato de estimação, o Carlão?  O novo proprietário havia quebrado uma parede para aumentar um espaço, mas ficou tudo encolhido e não tinha jeito mais de esticar.  Fiquei meio arrependido de ter mexido nas lembranças, como quem se surpreende com o pó e as traças nos livros guardados.  Mas também não tinha outro jeito: uma lufada de memórias quentes me comandavam... "Menino, já fez a lição?!"

***** 

Era dia de Domingo e meu avô, Ruy, havia acordado mais cedo para colher cana na casa da tia Neusa.  Quando a criançada foi chegando, formou-se aquela roda em torno do velho.  Deixaram seus brinquedos, seus carrinhos de rolimã, suas bonecas de sabugo ou de plástico, suas bolas de meia de lado.  O velho estava radiante.

Um dos menores, cheguei mais perto da cana e a faca escapou da mão do avô e cortou minha mão, na polpa do dedão.  Pensei: "Que negócio quente".  O velho começou a chorar e eu falei:  "Não precisa chorar, não tá doendo..." Aí ele desatinou a chorar mais alto e a gritaria chamou a atenção da minha avó.  Barraco geral.  Todo mundo sem seus gomos de cana e eu ainda levei a culpa.

Dedão enfaixado, de noite, o avô chega cochichando: "Vem ver o que eu guardei para você!". Era como se um fogo resplandecesse na geladeira: uma bacia pequenina com uns seis gomos de cana de açúcar... Fizemos as pazes que não tínhamos perdido.

*****

Quando voltei à cidade em que me criei, encontrei meu velho amigo de pré-primário, Adelino, criatura de alma doce e de abraço forte.  Moleque velho ou velho moleque? Conversamos, botamos o papo em dia, mas ainda ficou faltando muito para ser dito.  Mas não era preciso dizer nada.  Demos uma volta na cidade, mostrou-me o que tinha mudado e o que continuava do mesmo jeito.

Enchemos os bolsos das saudades com fatos cotidianos e com lembranças de outras épocas.  Quando fui me despedir para sabe quando nos encontrarmos de novo, lembrou-se:  "Guardei uma coisa que há muito tempo quero te entregar! Ainda bem que não esqueci desta vez!"  Era um envelope grande com uma foto pequena, de uns 10 por 12, amassada, envelhecida e muito mal registrada. A parte de cima tinha um clarão branco, que antigamente diziam que  havia queimado.  Mesmo assim, foi cuidadosamente guardada. Coisa de amigo...

Era uma foto minha, com uns cinco anos, vestindo o uniforme da escola, que parecia estes quadriculados de toalhas de cantina italiana, cabelo de índio e sorriso desdentado.  E pensei: "Como pôde este menino me trazer até aqui, são e salvo?!" Então entendi meu avô: o pequeno era o forte e eu é quem tremia...

Aí, não teve jeito: de uma hora para outra, a goiabeira floriu,  senti  nos ossos o abraço do avô e o marmanjo, tentando  em vão esconder o olhar marejado, exclamou: "Danou-se!".  Ao que o menininho da foto retrucou, sorrindo:  "Olha a boca!"




16.8.10

Aquém



Estou além do ...(...)... mal
Estou aquém do ...(...)... bem
Neste território de ...(...)... devaneios
Na bocada dos ...(...)... diamantes
Sei lá ao certo onde estou!

Vivo a vagar pelos caminhos modernos das telas
Um pirata contemporâneo...
Roubo o almoço e vendo o jantar
Me divido entre frases copiadas e rimas amortecidas
Para quê tudo isto!?

Miro o futuro mas meu gatilho é o passado
O presente é pulsação desgovernando a pontaria:
Queria ser o ser de meus planos
Mas a vida é convexa...
E é aí que o diabo se diverte!

Devaneios, diamantes, mal e bem
São os nomes dos meus animais
Que roem o tapete e o sofá da sala
Que bebem meu leite e me deixam a ração
Ou serei eu o bicho de estimação?

Além do bem e do mal eu não consigo respirar
Por isso o dia é hoje e me agarro ao agora
Com mira torta e ração farta no quintal
Troco meus medos por um punhado de amoras:
(Viver às vezes dá até soluço...)

12.8.10

Reparo


reparar
v. tr.
1. Renovar.
2. Melhorar.
3. Retocar.
4. Consertar, restaurar.
5. Indemnizar.
6. Restabelecer.
7. Compensar.
8. Reforçar.
9. Dar satisfação a.
10. Avigorar.
11. Notar; examinar; ver.
v. intr.
12. Precaver-se; acautelar-se.
13. Dar atenção a.
14. Observar.
v. pron.
15. Restabelecer-se.


Tantos significados em torno do mesmo centro gravitacional: um verbo para ser lido e refletido, mais que pronunciado.

Um motorista pára antes da faixa de pedestres, uma mudança de atitude.

Uma fala de reconciliação; uma ligação ou mensagem de texto.  Um e-mail.  Pronunciamentos.

A busca de explicações após uma recaída de algum mau comportamento reentrante.

Naquele dia, seu Pedro mandou reformar o sofá, dona Vilma comprou um novo filtro de pano para coar o café. 

Um dia como outro qualquer, mas um ar de recomeço: por que é que o ser humano é dado a ter esperanças?

Quadros novos na sala: a sala interior de receber as pessoas entre os braços. 

A sala de visita em tons amarelados.  Uma luz verde em seus olhos.

E Marcelo percebe uma fala de gente grande em seu filho de oito anos: um lampejo de sabedoria não pode deixar de ser reparado.

André deixa de beber para tomar antibióticos.  Nota que sua esposa precisa de si.  Torna-se mais próximo, profundo, prepara o jantar para ela, um prato antigo que ela sempre gostou: virado à paulista, sua especialidade.

Era uma manhã fria e Adriano sentiu que deveria doar algumas roupas velhas para estas caixas de papelão que ficam em frente a farmácias, em postos de gasolina...  Assim fez e sentiu um calor diferente daquele que as vestimentas lhe proporcionariam.

Era uma tarde que se aproximava vacilante e ele decidiu dar mais de si do que de costume, era como ouvir a música "Valsinha" de Chico e Vinícius, os acordes cingiam cordas em seu mais íntimo senso de ternura.

Mais verbos que histórias - uma refeição ligeira na companhia de um amigo antigo.  O que estas preciosidades cotidianas lhe proporcionariam?  

Uma estética de espaços entre as conversas, de entrelinhas verborrágicas em seu frenesi mínimo e reconciliador.  

Outro texto com vírgulas marcadas, respiros necessários em meio às contemporâneas histórias inextricavelmente embaraçadas.

Um verbo com dezesseis significados aprimorados, cada um deles clamando ser transformado em substantivo: reparo.

Termos esperanças: será este o (re)toque a definir o ser humano?  Ou será sentir saudades?  A pele - simplesmente - brilhar ao Sol?  Ou a capacidade de reparação?  


Onde é que começa a atitude - legitimamente - humana?