Aos meus avós, Ruy e Rachel, pelo aroma doce das goiabas no tacho de cobre sobre a brasa do fogão à lenha, pelos pingos doloridos que enfrentou quem se atreveu a rodar a colher de pau, e por aquela outra dor – muito, muito maior – da saudade, que – vai e vem tempo - não cessa de latejar.
Ao meu amigo Adelino, e tantos amigos de infância:
"onde foi que nos perdemos?"
Quando voltei à casa de infância tudo estava mudado: os espaços eram pequenos e a goiabeira não estava florida. Antes, moleque, era sempre florida, e todos os cantos eram suficientes para me esconder - de brincadeira ou por arte da meninice.
Quando voltei àquela casa, fiquei meio emperrado... Onde estavam todos? Cadê meu gato de estimação, o Carlão? O novo proprietário havia quebrado uma parede para aumentar um espaço, mas ficou tudo encolhido e não tinha jeito mais de esticar. Fiquei meio arrependido de ter mexido nas lembranças, como quem se surpreende com o pó e as traças nos livros guardados. Mas também não tinha outro jeito: uma lufada de memórias quentes me comandavam... "Menino, já fez a lição?!"
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Era dia de Domingo e meu avô, Ruy, havia acordado mais cedo para colher cana na casa da tia Neusa. Quando a criançada foi chegando, formou-se aquela roda em torno do velho. Deixaram seus brinquedos, seus carrinhos de rolimã, suas bonecas de sabugo ou de plástico, suas bolas de meia de lado. O velho estava radiante.
Um dos menores, cheguei mais perto da cana e a faca escapou da mão do avô e cortou minha mão, na polpa do dedão. Pensei: "Que negócio quente". O velho começou a chorar e eu falei: "Não precisa chorar, não tá doendo..." Aí ele desatinou a chorar mais alto e a gritaria chamou a atenção da minha avó. Barraco geral. Todo mundo sem seus gomos de cana e eu ainda levei a culpa.
Dedão enfaixado, de noite, o avô chega cochichando: "Vem ver o que eu guardei para você!". Era como se um fogo resplandecesse na geladeira: uma bacia pequenina com uns seis gomos de cana de açúcar... Fizemos as pazes que não tínhamos perdido.
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Quando voltei à cidade em que me criei, encontrei meu velho amigo de pré-primário, Adelino, criatura de alma doce e de abraço forte. Moleque velho ou velho moleque? Conversamos, botamos o papo em dia, mas ainda ficou faltando muito para ser dito. Mas não era preciso dizer nada. Demos uma volta na cidade, mostrou-me o que tinha mudado e o que continuava do mesmo jeito.
Enchemos os bolsos das saudades com fatos cotidianos e com lembranças de outras épocas. Quando fui me despedir para sabe quando nos encontrarmos de novo, lembrou-se: "Guardei uma coisa que há muito tempo quero te entregar! Ainda bem que não esqueci desta vez!" Era um envelope grande com uma foto pequena, de uns 10 por 12, amassada, envelhecida e muito mal registrada. A parte de cima tinha um clarão branco, que antigamente diziam que havia queimado. Mesmo assim, foi cuidadosamente guardada. Coisa de amigo...
Era uma foto minha, com uns cinco anos, vestindo o uniforme da escola, que parecia estes quadriculados de toalhas de cantina italiana, cabelo de índio e sorriso desdentado. E pensei: "Como pôde este menino me trazer até aqui, são e salvo?!" Então entendi meu avô: o pequeno era o forte e eu é quem tremia...
Aí, não teve jeito: de uma hora para outra, a goiabeira floriu, senti nos ossos o abraço do avô e o marmanjo, tentando em vão esconder o olhar marejado, exclamou: "Danou-se!". Ao que o menininho da foto retrucou, sorrindo: "Olha a boca!"