Henri andava pelas ruas de Porto Príncipe e pensava: “Que náusea... O que será que eu comi que está me fazendo passar tão mal?” De repente, começa a sentir as pernas trêmulas. Não consegue ver as horas no relógio da catedral. Fica pensativo. Que dia é mesmo hoje? De repente, começa a ver gente correndo e sente as pernas mais frouxas ainda. Um barulho surdo e quase contínuo. Um ruído que se percebe com as carnes e ossos todos do corpo. Sente-se bambear e cai ao chão. Quase ouve o barulho de sua cabeça ricocheteando no asfalto. Será que ele a protegera com as mãos?
Este não é um dia ensolarado nem nublado na capital creole. Todas as referências do dia ou da noite estão perdidas na catástrofe. Tem sorte quem pôde ouvir o próprio grito: suas chances serão um pouco melhores. Dali em diante, sobreviver terá o significado que o termo dolorosa e especificamente aponta: não vida, mas sobrevida. Por quanto tempo Henri suportaria viver vendo o seu país chafurdar ainda mais na desgraça? Quem da sua família teria resistido ao tremor? Quem teria se perdido? O que iriam comer?
Não interessa o que se estivesse fazendo no momento da tragédia: chegando em casa, esperando a condução, preparando o jantar, ouvindo rádio, tomando o coquetel anti-retrovírus ou esperando um novo cliente. Interessa apenas saber: quem sobreviveu e quem terá sumido em meio aos escombros. “Em meio aos escombros” fará parte de um cotidiano negro, sombrio: baixo contínuo de uma melodia insólita, sem a beleza da cor do povo local. Para Henri, em seus 27 anos vividos de modo correto e frugal, todos os cantos são escombros, restos de uma terra natal que ele aprendeu a amar e que ouviu dizer ser a capital mais pobre das Américas. Não sabia que havia tantas Américas assim como diziam e que a dele, apesar de Central, fosse a mais esquecida. Nada dessa história de mundo plano. Parece que agora, finalmente, Deus ou o diabo haviam se lembrado daquele lugar.
Depois de doze horas, acorda. Tonto, o rosto riscado por sangue coagulado. Uma sede tremenda. Onde conseguiria água? O que vê é um cenário de sonho em que esfregar os olhos não o faz despertar. Grita sem ouvir e sem ser ouvido. Há outras pessoas perambulando para cá e para lá. Gritos, grunhidos, gemidos e aquela sede que não há água no mundo que chegue. A ilha cujo formato lembra a boca de um jacaré fecha os dentes famintos sobre si mesma.
Marcos é um combatente do Exército Brasileiro. Para ele, simplesmente: EB. Voluntariou-se para ir ao Haiti. Não imaginava que uma catástrofe natural anteciparia seu vôo. Na volta, o sonho do apartamento próprio, outras emancipações, uma bagagem cheia de lembranças e planos de um novo amor. Sabia que amor não se planeja, mas tentava evitar que viesse antes, pois não gostava de cartas românticas, apesar de nunca ter recebido uma. O que sabia era o que via nos filmes que indicava aos amigos: Apocalipse Now, Band of Brothers, Jarhead, Cartas de Iwo Jima. Mas sabia em maior profundidade, pois aquela história das telas seria também a sua, era apenas uma questão de descompasso de temporalidades. Agora ouvira o clique que juntaria as pontas dos eventos. Como tantos outros cliques com que se preparara nos treinamentos noturnos do EB: parece que foi uma nova movimentação de placas tectônicas. E ouvira com raiva a notícia de que um cônsul falara que o terremoto foi resultado de macumba, coisa de gente de pele escura. “Por que será que tem sempre um engravatado para estragar tudo? Não dava para ter ficado quieto? Não era esta uma missão de paz?” Marcos não vai bem em gravatas, mal sabe como dar-lhes o nó. Consigo, a realidade é clara, seus objetivos são firmes e coerentes, e em seu dicionário a palavra causa tem um só significado. Não o do meio matemático; sim, o do ideológico. Sabe o que significa morrer e, mais que isto, viver por uma causa. Perdera mais de 15 irmãos de farda recentemente. Na garganta, este era o único nó.
Um amigo o aconselhara a escrever um livro com suas experiências e vender o roteiro. Marcos sabia que aquilo não era coisa que se vende. São vidas e com isto não se brinca. Mas sentia-se tentado em ver aquilo registrado nas telas, uma vez que outro aventureiro poderia se deixar capturar, num tempo futuro, numa terra distante, a lutar por uma gente que não a sua, por uma causa que não a sua, movido por aquelas coisas sem massa que se movem no pano imenso na sala escura. Se é que alguma causa que envolva sofrimento, em qualquer tempo e terra, pode ser outra coisa que não universal.
Henri não irá conhecer Marcos, que chega em outro bairro da capital cinza barrenta. Capital negra, vermelho vivo e morto. Henri começa, intuitivamente, a auxiliar no resgate, sem receber nada, que ainda não há quem pague ou quem receba. A única coisa que se ganha é ainda estar vivo, água e uma ração contada e sem gosto. O gosto ou não há ou não importa. Gosto é coisa que sente a alma livre e desamarrada. A alma de Marcos não está mais livre, ao menos por enquanto. Nunca vira nada parecido. São amontoados de corpos. Cães, homens, mulheres, velhos, crianças - agora, simplesmente: corpos. Os que querem ajudar não tem como ajudar. Alguns rezam. O modo de rezar ali é andar e procurar por sobreviventes. Por alguns segundos imagina quais serão as notícias abaixo do Equador: será que o número de mortos passou de oitenta mil? Será que haverá gente para tratar daqueles com estresse pós-traumático? E dos aleijados? E estes milhões de dólares que não chegam? Sabe que quando parar a contagem das vítimas, a notícia esfria e deixam a ilha novamente em paz... (Paz?! Realmente estava confuso...) Fica pensando se alguém está sentindo dor e não pode ser operado. Pensa que, numa situação destas, preferiria estar morto, mas depois lembra da técnica de desviar o pensamento e tira isto da cabeça. Henri tem uma família de cinco pessoas na capital haitiana, mas toda a sua grande família mora em uma cidade menor à beira-mar. Não há notícias, telefonemas, internet, televisão ou rádios. Trabalhava em uma pequena plantação suburbana. O que terá acontecido da plantação? Por quanto tempo resistiria aos saques, à violência e à fome? Suas lamúrias vão melhor em bom creole que em francês, que ele, como a maioria da nação analfabeta, não sabe bem ao certo como utilizar. Não há mais de que ou de quem reclamar. Um roteiro a la Saramago: vivo e a céu aberto.
Marcos usa um capacete azul como outros combatentes de uma força internacional que se instalara por conta da situação caótica do país. Guerra civil, diziam alguns. Outros usavam termos mais brandos, insolvência do Estado. Miséria, concordavam todos. O capacete começa a pesar lá por volta das quatro da tarde. O pescoço segue rijo, o olhar adiante e entre frestas. Nunca percebera olfatos de modo tão aguçado em qualquer outro momento de sua vida. Pensou: será que quando eu voltar e arranjar uma mulher, meu nariz ainda estará tão apurado? Foi o único pensamento erótico do mês, o que lhe causara um rápido e insípido ressentimento. Entrementes pensa: “é... a vida não está para brincadeiras...”. Aí pára de pensar. Segue caminhando por mais três quilômetros até o acampamento e deixa os olhos flutuarem bambos nas órbitas, em busca de tempos mais coloridos em sua memória. Alguns sonhos bizarros se misturam com a chegada de outros capacetes azuis. Em duas horas estará de pé. Será que fará amigos entre a população local? Quantos pensamentos desencontrados... Quase adormece.
Henri é um personagem imaginário de um país pungentemente real e esquecido. Marcos é uma figura real de um país que nunca é levado a sério. Entre os dois, um universo. Personagens de um texto breve, antípodas de um teatro em ruínas ou marionetes nas mãos de um deus brincalhão? Henri nunca lerá este texto escrito numa língua que ninguém mais fala, como a sua. Marcos, ao recebê-lo e vê-lo publicado na internet, pasmo, finalmente conclui: “É, isto é comigo...” Recebe os comentários como se fossem para si mesmo e sente-se encorajado. Coragem que o fará apreciar com muito mais beleza as embaralhadas cores de sua terra natal naquele final de tarde, momentos antes do pouso em seu trajeto de regresso. Não, o mundo não é plano.