Ela vem quando se está distraído
Aroma intenso, de onde vem?
Procure!
Não se esqueça de caminhar
Dama da noite
Uma flor dentro de
Tímida arvorezinha
Cestrum nocturnum
Inesperada, chama
Flagrante deleite
Nas últimas horas
Do mês de maio
Ela te salva
De uma noite besta
Fragrância derrete
Faça as contas
O que sobrou, o excesso
Divida as perdas
Subtraia o desânimo
A flor voltará em um ano
Perfume a lembrar o que já foi uno:
Ah! Dias prateados da infância...
Outrora era flor
Hoje é dama
Um dia, apenas a noite
E juntar em si, tudo!
Além de flor
Ser dama e ser noite
E de quebra, nossa gratidão:
Fazer-nos inspirar fundo e acreditar...
31.5.11
25.5.11
Entrega
Um bebê se rende ao sono
Do outro lado do oceano
São quase onze aqui
E lá, quantas horas?
O bebê não faz a mínima
Apenas se entrega
Um barulho inconfundível de placas de metal caindo
Ônibus acelerando, solda e marteladas
A cidade pede licença
E coloca o bloco no caminho
Para minha dor passar
Pena, é só concreto mesmo...
O silêncio da cidade tem algumas
Dezenas de decibéis
Seu silêncio tem algumas
Centenas de pensamentos
O bebê está lá do outro lado
Dormindo - o anti-poético babar-se.
Logo alguém virá me cutucar e
Vai me arrancar deste mundinho sossegado
Todo mundo tem um lado bebê que dorme
Enquanto o mundo funciona e joga
Cimento e argamassa em nossos olhos
Vociferando, jorre um insulto
O que faz os grandes babarem-se é
A incapacidade de entrega
A qualquer coisa,
A qualquer hora,
A qualquer
Sentido genuíno de renúncia
Deixemos o bebê descansar
Nós é que estamos
Do outro lado do oceano
Entregue seus problemas na caixa de papelão
Em frente à farmácia da esquina e renda-se
A quem entregará suas armas: à poesia ou à vida?
Do outro lado do oceano
São quase onze aqui
E lá, quantas horas?
O bebê não faz a mínima
Apenas se entrega
Um barulho inconfundível de placas de metal caindo
Ônibus acelerando, solda e marteladas
A cidade pede licença
E coloca o bloco no caminho
Para minha dor passar
Pena, é só concreto mesmo...
O silêncio da cidade tem algumas
Dezenas de decibéis
Seu silêncio tem algumas
Centenas de pensamentos
O bebê está lá do outro lado
Dormindo - o anti-poético babar-se.
Logo alguém virá me cutucar e
Vai me arrancar deste mundinho sossegado
Todo mundo tem um lado bebê que dorme
Enquanto o mundo funciona e joga
Cimento e argamassa em nossos olhos
Vociferando, jorre um insulto
O que faz os grandes babarem-se é
A incapacidade de entrega
A qualquer coisa,
A qualquer hora,
A qualquer
Sentido genuíno de renúncia
Deixemos o bebê descansar
Nós é que estamos
Do outro lado do oceano
Entregue seus problemas na caixa de papelão
Em frente à farmácia da esquina e renda-se
A quem entregará suas armas: à poesia ou à vida?
23.5.11
Maio
É sonoro.
Mas é principalmente luminoso.
O Sol é prateado.
Algumas pessoas arriscam andar na rua e olhar para frente e para cima.
O que é uma novidade.
Maio.
É preciso ficar atento pois só dura um mês.
Depois tem outras épocas bonitas.
Mas viver em maio é um desafio menor.
Se é que viver deixa de ser, a qualquer hora
Um tapa na cara.
É mês de Maio
Três vogais para uma consoante.
Favorecido pela abertura do mês anterior
E antecipando as festas religiosas do seguinte.
Maio não tem expectativas ou pretensões.
É só estar.
(E não é pouco).
Em maio, lembro-me do primo perdido por uma morte súbita
Parece que foi do coração.
E lembro da vitória de algum time de futebol.
Mas é tudo passageiro, não fiquemos reflexivos.
Não é tempo de profundidade.
A única coisa realmente profunda é,
Por um mês que seja, a beleza.
Nem frio nem calor,
Um tempo de diamante
Sem brigas ou congraçamentos,
Reconciliações.
Um pedreiro mexe com a menina na rua,
Um taxista avança o sinal vermelho.
Tudo no seu lugar...
Uma vez eu escrevi ou pensei
Que as borboletas voltariam
No mês de maio:
Balela.
Mas, de repente,
Era de outras borboletas
Que eu sentia falta...
Não quero um texto bonito,
Não quero acordar ninguém,
Desejo não querer nada e apenas
Denunciar a beleza do mês de maio.
Olhe em volta, para cima e esqueça,
Senão por um mês, por um dia
Que outros meses virão.
Sol prateado: ainda é maio.
Mas é principalmente luminoso.
O Sol é prateado.
Algumas pessoas arriscam andar na rua e olhar para frente e para cima.
O que é uma novidade.
Maio.
É preciso ficar atento pois só dura um mês.
Depois tem outras épocas bonitas.
Mas viver em maio é um desafio menor.
Se é que viver deixa de ser, a qualquer hora
Um tapa na cara.
É mês de Maio
Três vogais para uma consoante.
Favorecido pela abertura do mês anterior
E antecipando as festas religiosas do seguinte.
Maio não tem expectativas ou pretensões.
É só estar.
(E não é pouco).
Em maio, lembro-me do primo perdido por uma morte súbita
Parece que foi do coração.
E lembro da vitória de algum time de futebol.
Mas é tudo passageiro, não fiquemos reflexivos.
Não é tempo de profundidade.
A única coisa realmente profunda é,
Por um mês que seja, a beleza.
Nem frio nem calor,
Um tempo de diamante
Sem brigas ou congraçamentos,
Reconciliações.
Um pedreiro mexe com a menina na rua,
Um taxista avança o sinal vermelho.
Tudo no seu lugar...
Uma vez eu escrevi ou pensei
Que as borboletas voltariam
No mês de maio:
Balela.
Mas, de repente,
Era de outras borboletas
Que eu sentia falta...
Não quero um texto bonito,
Não quero acordar ninguém,
Desejo não querer nada e apenas
Denunciar a beleza do mês de maio.
Olhe em volta, para cima e esqueça,
Senão por um mês, por um dia
Que outros meses virão.
Sol prateado: ainda é maio.
6.4.11
50
(Para Yone)
E aí então você se depara com ele - o momento do fantástico. Não há alarme, não há sinal, raramente uma intuição. No mais das vezes, só a dúvida. A dúvida de que seja isto mesmo, a dúvida de que esteja acontecendo. A desconfiança, grau mais profundo da incerteza.
E ocorre de repente. Na vida é assim: não tem replay, não tem árbitro. Só há o correr, raramente a bola. Gol, então, só de quarta e domingo. Mas a gente entra em campo a toda hora. Se é que um dia sai dele...
E aí então você repara que foi. E como foi. Um lapso de criatividade e, pronto, você chega lá. Mas tem dias que este incenso não acende, e fica o vácuo do aroma que deveria ter vindo. Tem semanas que o pão não cresce e que o tempo não deixa nada acontecer. Acontecer como deveria. E você acha que sabe como as coisas deveriam ser. Hahahaha! Não tem dias que você tem vontade de rir de você mesmo? Eu tenho.
E aí então você pára e vê que não era nada disto. Mas já é tarde, já é cedo e é outro dia. Ontem já passou, você só vive no hoje, mas insiste em viver em vários dias ao mesmo tempo. Para isto recruta suas lembranças e suas preocupações e espraia sua vivência do hoje em horizontes alargados e rebatidos de tempo. Você não sabe o que é o tempo e ninguém pode dizer o que seja. Fora as discussões que nunca ninguém entendeu...
E aí você lembra que, quiçá daqui a uma semana, ele apareça de novo - o rasgo do imprevisível, inacreditável. E começa a contar as horas. E fica de espreita, escondido atrás da caçamba do disque-entulho. E, súbito, ele chega. Ele ou, pior ainda, a camisa de força.
E aí então você percebe que tenta novos começos. E aí então, já foi. E aí então... E aí então... Mas não adianta, ela não vem. Ela é astuta e escorregadia, a tal da criatividade. Não está onde você procura, nunca. Se você acende o forno, ela já estava debaixo da mesa, se busca a Bíblia ela se revela atéia. Se liga um programa na TV ela queima uma estação de retransmissão de energia. A criatividade é uma gota límpida e fluida, menor que o rendilhado de sua peneira.
E aí então você é enfeitiçado pelo momento derradeiro, aquele ápice de revelação que ocorre entre a vida e a morte. E você percebe que sempre esteve entre a vida e a morte, que é o único lugar que se existe para viver. A novidade única é a revelação disto tudo.
E você pensa que estão te filmando, que alguém quer te sacanear, que o mundo está para acabar, que algo ruim vai acontecer. E depois pensa que é tudo bobagem e toma um chá de camomila e escuta uma música dos anos 30. Do século passado ou deste, tanto faz. Em que século estamos mesmo? Não é tudo uma questão de referencial?
E você começa a olhar para o texto e começa a achar tudo muito louco e não vê sentido algum. E pensa: será que eu me distraí e não entendi um significado oculto qualquer que daria sentido a isto tudo? E aí relê e vê que não, não tinha significado oculto algum. “Uma joça!! Pode ser que tenha e eu não tenha percebido.” E vai para o começo e volta para o meio, esmiuça as palavras até chegar ao final. E pensa que seria bom se você pudesse fazer o mesmo com a sua vida. Mas ela precisaria estar no papel e não está. Ou talvez esteja, só que você não sabe onde é que esqueceu o tal do livro. Se é que alguma vez já chegou perto dele. Mas chega a sua vez e você encontra o livro: “que raio de idioma é este?!?!”
E aí então você percebe que coisa engraçada e fantástica é poder ter consciência das coisas que acontecem com você e que você se dê conta de acompanhar os seus pensamentos e até rir-se deles.
E que possa ler e encontrar surpresa em cada uma das palavras ou delas debochar. E que está tudo com você - a decisão de se encantar com ou de ridicularizar um texto, um rango de um botequim meia-boca, um momento de epifania. Enternecer-se, fazer brotar uma lágrima, acender um busca-pé, e até aquela postura esquisita de yoga. Tudo, exatamente tudo! Ou tudo menos a tal postura...
E se você pudesse fazer isto com o mundo à sua volta? Mas será que pode? Será que resistiu à tentação de entrevar-se, que é o jeito mais confortável de se viver os dias de hoje?
E aí então percebe que ter consciência de si mesmo é um passo além daquilo que conseguem os animais, que também percebem a si mesmos - o espaço físico de seus corpos, suas sensações básicas de fome, dor, medo, sono. Mas não sabem dar nome a isto. E de que adianta dar nomes? E se os nomes estiverem errados?
E se você percebesse que faz parte de um organismo maior? Que você é, noves fora zero, não um ser, mas uma célula? E se você percebesse que o que ocorre com cada uma das células pode afetar o seu ser celular? E que o seu ser não é seu, mas sim deste organismo maior?
E se, neste arroubo inefável do absurdo, resistisse à pressão mundana para se controlar e tornar a acreditar que você não é o todo, mas é - tão-somente - você. E sendo só você, deve voltar a fazer o que fazem os viventes: comprar, sonhar, votar, reproduzir-se, automatizar-se, anular-se... E o fundamental: esquecer, esquecer, esquecer... Ou seria outra coisa?
E aí então eu lhe convido a deixar de bobagem e a não levar nada disto a sério. Logo será o começo do mês, nada importante vai acontecer. Um monte de compromissos lhe chamam para a realidade e é lá que as coisas estão. E se não estiverem, que diferença faz?
E, finalmente, se faz qualquer diferença, provavelmente não fará daqui a cincoenta anos. E eu já nem sei se se escreve cincoenta ou cinqüenta. E é disto que este texto trata, exclusivamente. Por isto, melhor grafar assim: 50. Esta é uma questão mais importante do que tudo o que você leu.
Venha, volte a dormir: já está na hora de acordar....
29.3.11
Poema Comestível
Dizem que o poema tem que ser sentido
Mas este eu quis fazer diferente
E inventei cada uma das palavras
Como se fosse mentira pura
Requeijão com goiabada
Falaram até da verdade que se oculta
Em cada linha, por mais que o autor tente
Em vão, ou se fingindo de besta,
Negar, esconder, guardar no forno
Torta de banana requentada
Eu, entre atônito e incrédulo,
Vou assim duvidando de tudo,
Mas não quero descobrir nada,
Nem revelar, só escrever
Geléia de morango, marmelada
E parece escandaloso que
Ainda tenha gente que pense
Que tudo que se cria é
Nada mais que autobiografia
Café com leite, pamonha assada
Começo até a achar engraçado
Que ao fim de cada pequeno trecho
Sempre me venha à cabeça
Alguma guloseima desaforada
Pé-de-moleque, paçoca, cocada
E a poesia se nega a acontecer
Pois percebe que o que eu quero mesmo
Não é escrever absolutamente nada
É, tão-somente, matar esta fome danada
E coragem pra enfrentar a feijoada!
24.3.11
Como posso?
O que aconteceu é que estava procurando a solução para instalação de um módulo de segurança no computador. E aí, como todo sujeito mais ou menos conectado (mais para menos?) e distraído (mais para mais?), recorri ao avô dos burros, o Google.
E comecei a digitar: Como posso... e então, não mais que de repente, na tentativa de adivinhar minha pergunta, o oráculo digital sugeriu dez possibilidades, que são as questões mais feitas pelos internautas. Em meio a meu pasmo, refleti que aquela lista de interesses reflete o que muitas pessoas buscam saber e, enfim, seus desejos.
Óbvio que não vai, nisso, nenhuma preocupação metodológica, apenas uns palpites à beira do cair da tarde na paulicéia chuvosa. Já aviso que é tudo culpa da chuva... Nesta hora grafite onde muita gente boa está trabalhando e eu encontrei uma brecha para ficar à toa.
E quais as perguntas mais frequentes?
Como posso engravidar, fazer para engravidar ou saber se estou grávida? Quatro das dez perguntas.
Como posso fazer um msn, um orkut, saber quem me bloqueou no msn? Três perguntas.
Como posso emagrecer? Uma.
Como posso me calar? Uma.
Como posso ser feliz? Uma.
Então aconteceu comigo uma coisa bem mais interessante: eu, que procurava uma solução besta para um problema de um software, me deparo, de bandeja, com o que as pessoas mais desejam (ou temem).
Muitos podem contra-argumentar que seria uma análise equivocada, já que os jovens e os adultos-jovens são os maiores usuários de internet. Ok, e daí? Não são os jovens que ditam a tônica de uma época e seus novos paradigmas?
Ainda que as perguntas falem por si, vale alguns comentários:
As ferramentas tecnológicas são úteis para combater os dramas humanos. O compartilhamento de informações serve como um conselheiro digital, até como confessionário. Trocam-se experiências, dúvidas, medos. Anônimos postam comentários como quem lança uma garrafa ao mar.
A interconectividade transcende espaço, já que pode ser acessada praticamente de qualquer lugar e a qualquer hora. Supera espaço, já que um escreve conforme sua conveniência e outro lê conforme sua conveniência. Cada um em seu tempo. Resta saber se à tela do computador e à sua exuberante praticidade não faltam o alento do olhar nos olhos e do toque da mão quente no antebraço a inquirir: "Você está bem?"
A tecnologia pode servir justamente para o contrário: aumentar o sofrimento. Sua mão fria e inexistente, o afã insensato de validade de muitas de suas respostas descompromissadas, o lado perverso do anonimato pseudo-libertário: o que disso nos alivia em momento de real angústia? As respostas para os grandes dramas vivenciais estão na internet? Pode ser que sim, mas com tantas páginas, onde começar a procurar? Não parece uma multiplicação desnecessária do mundo real?
Queremos gerar vida e temos medo disso. Temos medo de nosso desejo (jargão repetido e provado por a+b e c+d). Queremos engravidar, temos medo de engravidar. O que é buscado à exaustão em um momento é o terror em outro. Na juventude não estamos prontos, pois precisamos conquistar o mundo. Na adultice queremos gozá-lo, mas não dá para engravidar na velhice. E a conta não fecha. Fico pensando se melhor pergunta não seria: quando devo engravidar? Mas disso não sei nada, mulher é outros quinhentos e ainda não teve quem conseguisse desvendar um milésimo de seus mistérios... (Talvez a resposta deva ser conquistada artesanalmente, para cada casal).
Queremos pertencer às redes sociais. Reais e virtuais. E temos medo de receber um "unfollow". Uma cientista cognitivista da University College of London, Stefana Broadbent, observou que as pessoas tem, em média, 120 amigos no Facebook (site mais acessado da atualidade, à frente do Google), mas, de fato, mantém contato com quatro a seis pessoas diariamente. Queremos aceitação e socialização mas, paradoxalmente, intimidade e cumplicidade. São e serão sempre as mesmas pessoas. Pois vínculo é algo para ser regado diariamente. Uma mensagem de boa noite não comunica nada. Apenas transmite afeto. E ponto.
As pessoas querem ter controle sobre o corpo, sobre o estado de espírito e sobre a fala. E isto não é fácil, senão não perguntaríamos para o oráculo moderno, Google Search. Controlar o apetite do corpo, o apetite da alma em ser feliz e o desejo de falar e se expressar. A comunicação externa é obstáculo para o silêncio do espírito.
Gostaríamos de ser mais controlados mas o que faz de nós, seres humanos, em última instância, maximamente amáveis é justamente nosso descontrole, nosso descompasso, nosso desvario. "Amo, em ti, o grande desafio que me lança para continuar a amar-te".
Como ser feliz? Realizando o que os nossos desejos (coletividade em que nos tornamos) nos impõem: é preciso gerar vida, viver em rede, fechar a boca e, enfim, ser feliz. E amar no outro, como em si próprio, nossa tenebrosa perplexidade com a total ausência de respostas...
Termino de escrever e o grafite dá espaço a um tom laranja nas paredes do prédio ao lado. Saúdo este contra-Sol com meu pensamento derradeiro do dia:
Nos mares modernos, como nos antigos, as garrafas acabam voltando para quem as lançou...
10.3.11
Novo Blog - Veio Na Veneta
veneta | s. f.
veneta (ê)
s. f.
veneta (ê)
s. f.
1. Acesso repentino de loucura.
2. Por ext. Mania; tineta; telha.
dar na veneta: vir à ideia.
dar na veneta: vir à ideia.
Então aconteceu assim: veio na veneta a idéia de criar um blog para escrever sobre cinema sob o enfoque de um profissional de saúde que trabalha com dependência química.
Não sou crítico de cinema e taí uma coisa que não gostaria de fazer: perder a beleza da arte pela racionalidade da anatomia da sétima arte.
Este é um espaço para sentir-se em casa. Relaxe, tire os sapatos, faça uma pipoca, escolha um chá. Para aqueles que preferirem guaraná, voilá, guaraná.
Se você enfrenta um problema com qualquer substância psicoativa considere os alertas de não ficar lendo assuntos relacionados à dependência, para não mexer na onça com vara curta.
Para os profissionais, este não é um blog acadêmico. É, antes, um bate-papo, um fórum de trocas. Nada do que aqui vai tem a pretensão de soar realidade última. É um ponto de vista, um vértice de observação, uma linguagem equívoca, sempre em mutação, errante, volátil.
Sugira filmes, comente, interaja, critique. Mais importante: veja os filmes sugeridos, isto é o mais divertido.
Inevitavelmente, muitas vezes o comentário pode induzir expectativas ou "roubar" alguns prazeres da degustação às cegas da película. Sugiro, sempre, que veja primeiro o filme e, em seguida, leia o comentário.
Aceitarei comentários anônimos, mas para zelar pelo espaço, moderarei os comentários em respeito aos outros possíveis leitores.
Bem-vindo!
Visite agora: http://veionaveneta.blogspot.com
Visite agora: http://veionaveneta.blogspot.com
16.2.11
Blue Dream
"Em meu sonho havia música,
Como nunca antes,
Em claves de sol,
Em claves de dó,
Nos acordes dissonantes,
E rodopiavas em ritmos inebriantes
Mergulhando em espirais nos rincões
de meu desvario.
E em luzes e em brumas,
cores pastéis de seu vestido
contrapondo-se à brisa quente
das memórias indissolutas.
A força alucinatória
dum dançar primitivo e o
silêncio da tua voz
a comunicar-me o porvir
num sorriso inefável.
A dor de teu olhar
fitando-me na distância do tempo,
intransponível,
E o cingir teu braço,
impossível.
E em meu sonho eu não sei...
E deste não saber de ti
que a tudo se preocupa e enaltece:
Se vives, se és feliz,
Se abrandaste teu medo,
Se a tortura cotidiana das desilusões
Cravou amargos sulcos na pura alma tua,
E se acaso tuas esperanças ainda têm todas
as nuanças da turmalina...
E se somos leves como animais feridos de mortal beleza,
Estilhaços de um anel de vidro a se procurarem
no chão denso dos desencontros.
Neste entorpecimento em que acordo
Os sons ainda se ajuntam pelo assoalho da aurora
E somos novamente crianças
A compartilhar a vida, como algodão doce,
E beijos ardentes e doridos como mertiolate."
31.1.11
Outras ruas paulistanas...
(...uma homenagem à capital pela voz dos taxistas paulistanos)
"...é um negócio absurdo este trânsito da 23 de maio, chega nesta hora, nesta época do ano, tem que ter muita paciência. Outro dia vi um cara quase entrando debaixo de um caminhão, porque tava escrevendo mensagem de texto no celular. Vê se pode!? Essa loucura toda, nesta chuva e o sujeito inventa de escrever mensagem no celular!? Aí também não dá, né?"
*****
"...e essa molecada no semáforo? É um descaso sem jeito, é um crime. E os velhacos lá em cima cada vez mais gordos e mais ricos, só viajando de jatinho e comprando passagem de primeira classe pra familiada toda. Esses malabaristas-mirim são um soco no estômago do brasileiro. Sem contar que tem uns marmanjos que ficam fazendo disto uma indústria... Eu fico pensando se já não estão todos no crack.... Fazer o quê? Rezar?! Acho que nem isto adianta mais..."
*****
"...nesta época do ano a coisa fica um pouquinho melhor: muita gente de férias, a molecada fazendo festa no litoral, o movimento das empresas diminui. Aí eu também aproveito para trabalhar um pouquinho menos, levar a patroa no cinema, que ela gosta de ver filme e ainda não assistiu aquele Tropa de Elite 2, você já viu? É, também já me falaram muito bem, aquele cara é fera...(...)... Mas depois chega o finalzinho de janeiro e a cidade desperta de novo. Agora tem que torcer pra não ter enchente senão ferra tudo. Uma vez fiquei 6 horas parado no mesmo lugar na Marginal, sem poder ir para frente ou para trás. E o duro é que a gente acaba gostando disso aqui, entende? Tem oportunidade de trabalho para todo mundo, os moleques tem estudo, quando dá a gente faz um bate-e-volta para a praia..."
*****
"...eu cheguei aqui aos treze anos, em 1973, lá se vão quantos anos? Pois é, faz as contas aí... e desde 78 aqui na boléia. Férias só quinze dias por ano. O resto é aqui, ó, atrás do volante. Já vi coisas que é até difícil de acreditar. Acidentes, briga na rua, gente importante perdendo a classe por besteira... Essa cidade é uma loucura. Eu quero logo é poder sair daqui. Meu irmão tem um negócio no interior de Minas, de venda de tecidos, eu pretendo trabalhar até o final do ano que vem para juntar dinheiro e zarpar para lá... Aí vou deixar isto aí tudo que você tá vendo para vocês cuidarem, hehehe!"
*****
"...eu gosto de trabalhar é de noite. Você já viu como a cidade é bonita à noite? É verdade! A gente tá sempre apressado, mas São Paulo tem algumas coisas de deixar de boca aberta. Eu gosto de andar ali perto do Pacaembu, e também andar na Paulista, ainda mais agora com esta iluminação nova, tem gente que se encoraja de andar até mais tarde. Eu não tenho medo da noite. Hoje qualquer hora é hora. O negócio é ficar atento, mas também prestar atenção no lado belo da cidade..."
*****
"outro dia entrou um cara me pedindo para levar lá para a Zona Norte. Eu fiquei meio desconfiado com a aparência do sujeito. Ele mandou tocar, cheguei mais ou menos onde ele queria, e ele mandou continuar. Meu coração já começou a dar aquela disparada... Vire ali, e depois à direita. E não chegava o raio do destino. Pensei comigo: Valei-me, Deus! E fui, tentando aparentar naturalidade. E andei mais um quinze minutos depois do que ele me pediu. Chegando no lugar de destino ele abriu a bolsa, tirou duas notas de 50 e ainda me deu uma de 20 de brinde. E disse: "Desculpe não ter falado o lugar exato, é que quando eu falo, ninguém quer me trazer..." Aí eu vi que não tem jeito mesmo, nós somos um bicho preconceituoso pácas"
*****
"Eu? Sou, sou do Norte, tô vindo do Pará. Você me explica como chega em Congonhas? Eu ainda não sei direito... É, é verdade, melhor comprar um GPS. Mas o problema é que o GPS é cheio de falhas e se você ficar muito dependente dele, acaba não aprendendo a andar na cidade. Não, eu vim sozinho, minha família só chega no final do ano, tenho um menino e uma menina e a minha senhora está grávida do terceiro. Este táxi é do meu tio, ele trabalha de noite e me cedeu para eu trabalhar de manhã, só tenho que pagar metade do que o pessoal geralmente paga para alugar por semana, ele está quebrando um galho danado para mim, você nem imagina... É, vamos ver, eu tenho muita esperança de ser feliz aqui, dizem que é a terra das oportunidades, né? É rezar, trabalhar e esperar..."
*****
"É isto mesmo: dia de jogo não tem o que reclamar - é cenhão a corrida e sem recibo, se quiser pode procurar outro táxi. O quê? E eu, playboy, que fiquei mais de uma hora esperando aqui nesta fila enquanto a belezura tava lá dentro se divertindo?!"
*****
"São Paulo é o seguinte: é olho pra frente, no retrovisor, paciência, paciência e paciência. Depois disso, mais paciência. Eu, particularmente, gosto muito disso aqui. Tem um certo desafio de você dominar a cidade, sabe como é que é? Aí dá a impressão que você tem um poder diferente, sabe se desenrolar aqui no meio deste mundaréu. É a maior cidade do hemisfério Sul, não é verdade? E é a cidade mais brasileira que existe: mineiros, gaúchos, nordestinos, gente de tudo quanto é lado. Até paulistano tem aqui, se você procurar bem. Sem contar o meu time do coração, não é verdade? Qual é? O que você acha? Claro, né?! Olha para a minha cara! Só podia ser!"
*****
Sei lá como fazer uma homenagem para Sampa, então botei este tanto de personagens meio reais, meio fictícios. Acho que só assim mesmo para gostarmos desta cidade do jeito que ela realmente é: mais que real, mais que imaginária. Incorreta, esperançosa, medrosa, acelerada, cosmopolita, indispensável. Como seus taxistas. Como os clientes que eles carregam. Uma colcha de retalhos costurada com pressa, agulha grossa e uma só pitada de sensibilidade - que é preciso ter ainda mais sensibilidade para senti-la. Queria escrever mais, mas não dá, nunca dá. (E por que é que a gente sempre acha que amanhã vai ser diferente? Tá no céu cinza da cidade ou em nossos genes?) É sempre assim. Sampa me chama, tenho que ir correndo...
"Táxi!!!"
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